Julgamento

Terceira acusada de canibalismo contradiz outros réus em interrogatório

Publicado em 13/11/2014, às 19h54 | Atualizado em 13/11/2014, às 20h42

Amanda MirandaDo NE10

Eu estava lá no meio e via tudo, mas não gostava do que fazia, disse Bruna / Fotos: Hélia Scheppa

Eu estava lá no meio e via tudo, mas não gostava do que fazia, disse Bruna Fotos: Hélia Scheppa

Tranquila e falando em tom de naturalidade sobre a morte da moradora de rua Jéssica Camila da Silva Pereira, 17, a acusada Bruna Cristina, 28 anos, contradisse, no fim da tarde desta quinta-feira (13), o que foi dito no interrogatório dos outros réus, Jorge Beltrão, 52, e Isabel Cristina, 53. Ao contrário do que eles haviam afirmado, segundo Bruna, a filha de Jéssica, de 1 ano, não viu a mãe sendo morta nem comeu a carne dela. Bruna ainda negou ter assassinado a vítima, mas confessou ter ajudado a segurá-la com Isabel, antes de Jorge desferir a facada no pescoço que a matou.

"Eles traziam as vítimas, não era eu que trazia. Eu estava lá no meio e via tudo, mas não gostava do que fazia. Não me acostumei e queria que aquilo acabasse, mas eu não tinha como fazer aquilo acabar. Hoje, eu me sinto uma pessoa livre, apesar de ser presa", respondeu Jéssica a um dos sete jurados, que pela primeira vez no julgamento indagou um réu.

Durante a sua fala, que durou mais de uma hora, Bruna provocou risadas na plateia, pelo seu jeito de relatar o crime e a convivência com os outros acusados. "Jorge falou que, se matasse, tinha que comer, porque estava na Bíblia. Mas eu revirei a Bíblia de um canto a outro e não tem isso em lugar nenhum", brincou. Outro momento foi o que a juíza questionou se ela havia feito coxinhas com carne humana e a acusada respondeu: "Está repreendido!". A promotora  Eliane Gaia chegou a pedir que ela tratasse o júri com seriedade.

Bruna culpou Isabel e Jorge pela morte de Jéssica

Bruna culpou Isabel e Jorge pela morte de Jéssica

A acusada contou que o objetivo inicial de Isabel era de sequestrar a filha de Jéssica, um bebê de um ano à época, depois de conhecê-las em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife. No entanto, sem conseguir, acabou levando Jéssica para casa e falsificou os documentos usando Bruna, já que as duas tinham idades próximas. De acordo com o relato dela, depois os homicídios aconteceram.

Bruna afirmou ter ficado aterrorizada e arrependida pelos crimes, mas alegou não ter denunciado por amor a Jorge e medo de tornar-se vítima. "Amava muito ele, ele foi meu primeiro homem, meu primeiro namorado", disse.

Bruna ressaltou que Jorge tem problemas mentais, enfatizando o fato de ter ido à perícia do INSS com ele. Porém, acabou admitindo que não. "Do jeito que ele orientou a senhora, a senhora acha que ele é doido?", questionou Eliane Gaia. Após uma pausa, a ré disse que não.

Questionada, Bruna admitiu que já foi agredida por Jorge (foto)

Questionada, Bruna admitiu que já foi agredida por Jorge (foto)

Após uma pergunta do advogado de Isabel, Paulo Sales, a própria Bruna entrou em contradição. Apesar de ter afirmado à promotora nunca ter sido agredida por Jorge, a acusada acabou respondendo positivamente à indagação se já havia sido alvo de agressão e uma cuspida do réu.

Durante a toda a sua fala, ela colocou a culpa nos outros dois. "Isabel não tinha documento falso, mas em compensação fazia estelionato com o rosto", afirmou à defesa da ex-esposa de Jorge. Essa foi a linha adotada pelo seu advogado, Rômulo Lyra.

Embora não se diga "doida", nas palavras dela, estimulada pela defensora pública Teresa Joazy, representante de Jorge, Bruna fez como o acusado e questionou o exame de sanidade mental feito pelo psiquiatra forense Lamartine de Hollanda, uma das testemunhas ouvidas pelo júri. "Eu mal sentei, já levantei. Ele perguntou o meu nome, pediu para eu falar a verdade e logo interrompeu. Me disse que não acredita em Papai Noel nem em chapeuzinho Vermelho, que eu sou uma atriz. Pensei: Meu Deus, esse homem é um psiquiatra ou um promotor?", contou, voltando a provocar o riso entre o público.

Após o depoimento de Bruna, a juíza Maria Segunda anunciou que o julgamento seria interrompido e retomado na manhã desta sexta-feira (14).

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