Transporte

Rotina de longa espera e 'arrodeios' no Piedade/Rio Doce

Publicado em 11/11/2015 , às 19 h54

Amanda Miranda Do JC Trânsito

Ônibus cheio faz parte do cotidiano de quem precisa dessa linha / Foto: Amanda Miranda/JC Trânsito

Ônibus cheio faz parte do cotidiano de quem precisa dessa linha Foto: Amanda Miranda/JC Trânsito

A distância do Recife até o município de Gravatá, no Agreste pernambucano, é de 84 quilômetros. Por incrível que pareça, é quase o tamanho do percurso de ida e volta de uma linha de ônibus que corta três cidades da Região Metropolitana e é usada diariamente por cerca de 12 mil passageiros: a 910–Piedade/Rio Doce. Os "arrodeios" entre Jaboatão dos Guararapes e Olinda costumam ser alvo de críticas de usuários e rodoviários, mas o principal motivo de queixas são os atrasos.

É rotina esperar o ônibus por uma hora. Eram 10h42 quando entrei no Terminal Integrado de Rio Doce, em Olinda, onde dez passageiros já esperavam o ônibus havia 15 minutos. Muita conversa e 30 minutos depois, um veículo que fazia a variação Barra de Jangada/Rio Doce chegou - três para Piedade chegavam atrás. Foi sorte. O Barra faz apenas 18 das 105 viagens diárias da linha. Do itinerário, o que muda é que ele entra no bairro de Jardim Atlântico, ainda em Olinda, faz um percurso um pouco maior em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, e vai além da Avenida Ayrton Senna, já em Piedade, ponto de retorno do Piedade/Rio Doce.

A funcionária pública Maria das Graças da Silva, 50 anos, era uma das passageiras que já aguardavam a linha no terminal; no caso dela, depois de já ter esperado mais meia hora pelo 1966-Rio Doce (Circular). "É péssimo. Além de demorar muito, chegam três, quatro de uma vez e saem ao mesmo tempo, atrapalhando tudo. Os ônibus são sujos e já cheguei a pegar um com vômito no chão saindo do terminal. Pagamos uma passagem cara e não temos serviço de qualidade", reclama. A tarifa do Piedade/Rio Doce é a B, a mais cara da Região Metropolitana, que custa R$ 3,35 - com itinerário 25 vezes menor, o Rio Doce (Circular) também tem esse preço (veja os detalhes sobre as maiores e as menores linhas abaixo).

Duas horas e quarenta e cinco minutos é o tempo que o também funcionário público Euclides Bandeira, 51, geralmente leva de Rio Doce até o Pina, na Zona Sul do Recife, a uma distância de pouco menos de 20 quilômetros. Ele sai de casa todos os dias às 6h e chega ao trabalho às 8h45. "Demora muito e a fila é muito grande, às vezes vai até o portão do terminal. Não é raro ter que esperar mais de um passar para conseguir subir no ônibus", conta. "Deveria ser proibido aglomerar tanta gente como saco de lixo, seria o mínimo de dignidade. Isso é uma falta de respeito com quem paga. Acho que pensam que estamos pegando carona", opina a desempregada Carmelita Rocha, 50, outra passageira na fila.

Euclides questiona ainda sobre um boato que se espalhou entre os usuários, de que a linha acabará quando o Terminal Integrado de Joana Bezerra, na área central, com obras atrasadas há mais de um ano, for inaugurado. A informação, no entanto, foi negada pelo Grande Recife Consórcio de Transportes. Pelo menos com isso as pessoas não precisam se preocupar.

11h06. O primeiro dos três ônibus que passa é o Barra de Jangada/Rio Doce e a maioria das pessoas que estão na fila opta por ele. Ao longo do percurso, o veículo para em todos os pontos. Uma média de três pessoas sobe em cada um. Quarenta e cinco minutos depois, ainda está no Complexo de Salgadinho, saindo de Olinda, e já cheio.



Antes disso, porém, a técnica de nutrição Josilene Oliveira, 42, subiu no ônibus falando com uma amiga ao telefone. "Agora que eu peguei o ônibus e vocês já estão em casa", reclamava. Moradora de Piedade, foi à praia em Olinda e esperou o ônibus para voltar para casa por uma hora. "A parada de ônibus nem tinha coberta e fiquei no sol. Uma coisa é o sol da praia, outra o da parada, não é?", brinca. Como trabalha na Avenida Getúlio Vargas, em Olinda, pega o Piedade/Rio Doce diariamente. Sai de casa às 15h45 para chegar ao hospital onde trabalha às 19h. "É assim por causa do trânsito, mas dia de domingo é ainda pior, porque já esperei até mais de uma hora e meia. Socorro, precisamos de mais ônibus!", faz o apelo. O maître Edvan Lopes, 37, que estava perto dela no veículo, faz o percurso inverso e fora do horário de pico, porém, ainda assim, leva duas horas.

Carmelita afirma que horários do ônibus deveriam ser afixados no quadro

Carmelita afirma que horários do ônibus deveriam ser afixados no quadro Foto: Amanda Miranda/JC Trânsito

Quando o ônibus passa a Ponte Paulo Guerra, já no Pina, pelo menos segue mais rápido. Com a Faixa Azul, exclusiva para o transporte público, tem prioridade. Em 30 minutos, por volta das 12h40, chega a Piedade. Entretanto, a rapidez também vira motivo de reclamação dos passageiros. O motorista dirige rápido e, ao frear, acaba quase derrubando usuários que estão de pé. "Sentar, aqui, é milagre", havia dito o garçom Jeferson Júnior, 19, ainda em Olinda. Verdade, pois ele chegou ao destino, na Avenida Visconde de Jequitinhonha, no fim de Boa Viagem, ainda de pé, com o ônibus cheio. E nem era um dos horários mais movimentados. "ÔÔÔ!", gritavam senhoras que estavam na parte de trás a cada curva.

Eram 13h01 quando o ônibus parou no terminal de Barra de Jangada. Meia hora depois, voltou a sair. Mesmo mais tranquila, sem que o ônibus estivesse cheio, não houve menos reclamações. "A gente dorme, acorda e o ônibus não chega", afirma, ainda no ponto, a corretora Genita Lins, 63.

Cochilando, a auxiliar de cozinha Conceição Silva, 34, passava o tempo na Avenida Conselheiro Aguiar, em Boa Viagem. Como ela, há quem durma, quem fique ouvindo música (usando fones de ouvidos!), quem leia, quem mexa no celular, quem reclame...

Edvan leva duas horas para chegar ao trabalho. E nem é em horário de pico

Edvan leva duas horas para chegar ao trabalho. E nem é em horário de picoFoto: Amanda Miranda/JC Trânsito

Por causa do congestionamento - e da ausência de uma faixa exclusiva de ônibus, como a da Avenida Domingos Ferreira, paralela a ela - foi preciso uma hora para sair de lá. "O pior de tudo é que, além de demorar e vir lotado sempre, queimam a parada", denuncia. No meio da conversa, uma senhora sinalizou para o ônibus em um ponto e ele não parou. "Todo mundo fica revoltado."

A viagem acabou, finalmente, às 15h48, quase cinco horas depois, já entediada. Imagine o que o motorista, que faz isso duas vezes por dia, deve passar... "Não tem quem não se estresse, quem disser que não está mentindo. A culpa é toda do trânsito, que complica a situação da gente. É por causa dele e da pressão pelo tempo que 90% dos motoristas cortam a parada", revela Robson Roque, 30, na função há cinco anos. "Acabamos sempre chegando atrasados por causa do trânsito. Na Agamenon mesmo, misericórdia!", concorda André Félix de Lima, 43, cobrador há dois anos.

"É chão, viu?!", como dizem os passageiros ao longo do percurso. Só acrescento à frase que, além dos 'arrodeios', a Piedade/Rio Doce é cheia de problemas. Todos sem solução prevista. O motorista ainda tinha que ir a Barra de Jangada e voltar mais uma vez antes de largar.

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