Vias Travadas

Constantemente engarrafada, Avenida Rui Barbosa segue sem solução

Publicado em 09/04/2015 , às 16 h53

Amanda Miranda Do JC Trânsito

Cena de engarrafamento se repete diariamente na avenida / Foto: Luiz Pessoa/NE10

Cena de engarrafamento se repete diariamente na avenida Foto: Luiz Pessoa/NE10

Está tudo congestionado. Essa frase, que poderia se aplicar ao trânsito de quase todo o Grande Recife faz jus à realidade principalmente de algumas ruas e avenidas. É o caso da Av. Rui Barbosa, que corta três bairros da Zona Norte do Recife. De acordo com a Companha de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU), 25,5 mil carros passam por lá todos os dias. Muitos deles ficam presos no engararrafamento. Porém, a solução pode estar na diminuição do uso de automóveis.

Para evitar o estresse por causa das retenções na via, o engenheiro mecânico Paulo Rocha, 39 anos, preferiu ir ao trabalho caminhando nesta quinta-feira (9), um percurso de aproximadamente 3,5 quilômetros entre a Tamarineira e a Avenida Agamenon Magalhães.

"Vir de carro é mais perigoso. Parece que está todo mundo louco, querendo ganhar um minuto. Já tentei também vir de bicicleta, mas levei tranco", relata. De carro, Paulo perde 40 minutos para percorrer toda a avenida, o dobro do tempo que pode levar caminhando. "Não tem solução."

Perceba o tamanho do problema na galeria abaixo, que ninguém gostaria de ver:



"O senhor costuma ficar muito estressado nessa avenida", questionamos ao construtor José Fernando, 60. "E como, não é?", respondeu. Não foi o único. Para ele, que leva meia hora diariamente, por volta das 8h, para percorrer menos de dois quilômetros da Rui Barbosa, uma solução é construir pontes e viadutos. Na verdade, qualquer tentativa de desobstruir a via.

Esse plano, porém, não é o que sugere Leonardo Meira, professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal Pernambuco (UFPE). Para o especialista, o ideal é investir em ações de melhorias do transporte público e na restrição dos automóveis. "Não é interessante fazer uma medida sem a outra, mas sempre com estudo e planejamento técnico", explica.

O engenheiro indica como uma das soluções dedicar uma faixa da avenida exclusivamente aos ônibus. "Se fica no engarrafamento, não conseguimos transformar o transporte público em atrativo", argumenta. Nos cálculos de Meira, se todos trocassem os carros pelo ônibus, seriam em média menos 45 automóveis na rua a cada ônibus.

Atualmente, um empecilho aos passageiros dos ônibus cujo itinerário é pela avenida é que, principalmente nos horários de engarrafamento, muitos motoristas costumam trafegar pela faixa da esquerda, enquanto as paradas estão na direita. "Além disso, tudo demora muito nesse trânsito", afirma a funcionária pública Cecília Santana, 60.

Veja no vídeo a opinião de outros usuários da Avenida Rui Barbosa:



Para o professor da UFPE, outra forma importante de diminuir os congestionamentos é conscientizar a população. "A sociedade ainda tem a tendência de achar que o poder público tem que solucionar todo problema de trânsito. Mas temos que pensar que, ao comprar carro, estamos colocando mais uma gotinha no oceano", afirma.

O motociclista Janderson Duarte, promotor de vendas de 28 anos, evita ao máximo usar a Rui Barbosa. Mesmo assim, tem a necessidade de fazer isso pelo menos uma vez por semana para chegar à Avenida Agamenon Magalhães. "Às vezes não tenho paciência e pego outros caminhos, muitas vezes maiores. Essa avenida é difícil até para as motos, por ser estreita na altura das Graças", afirma. Para ele, ampliar o número de orientadores e guardas de trânsito na via poderia contribuir com a solução para o problema. Porém, já há profissionais nos principais cruzamentos, como o com a Rua Amélia.

Esse é o foco do trabalho da CTTU na via. "Esses profissionais trabalham com o intuito de proporcionar mais fluidez ao tráfego do local e evitar o cometimento de infrações, como fila duplas, o que muitas vezes são responsáveis pelo agravamento das retenções registradas na via", disse o órgão, em nota enviada pela assessoria de imprensa.

Calçadas são ponto crítico na Avenida Rui Barbosa

Calçadas são ponto crítico na Avenida Rui BarbosaFoto: Luiz Pessoa/NE10

Sem apontar outras soluções para a questão e se posicionando apenas por nota, apesar do pedido de entrevista, a Companhia afirmou ainda que "a via também concentra diversos polos geradores de tráfego, como parque, colégios, comércios e outros tipo de serviços, além de apresentar uma descontinuidade de faixas de rolamento, com trechos que possuem cinco faixas, seguidos de trechos que possuem apenas duas faixas, ocasionando o afunilamento do trânsito."

De acordo com Leonardo Meira, apenas obras viárias não seriam capazes de resolver os congestionamentos da Rui Barbosa. Não há viabilidade, por exemplo, de abrir novas faixas, já que há inúmeros casarões históricos ao longo da via. "Engenharia de tráfego é tentar extrair o máximo que uma via pode dar e isso já se faz", afirma o engenheiro que em prol da redução do uso dos carros.

As calçadas são ainda motivo de reclamação, embora sejam apontadas pelo professor como forma de estimular que os pedestres caminhem por lá. Para a pequena Luísa Andrade, 7 anos, estudante de um colégio particular na avenida, esse é um obstáculo. "Eu sempre tropeço e caio", conta. A menina vai à escola caminhando duas vezes por semana com a empregada doméstica Cristina da Silva, 40, que defende mais faixas de pedestres e uma ciclofaixa na via, para incentivar o uso de outros modais e, por consequência, a redução do número de carros.

Adeílson defende a instalação de ciclofaixa

Adeílson defende a instalação de ciclofaixa Foto: Luiz Pessoa/NE10

O balconista Adeílson Araújo, 56, anda de bicicleta na Rui Barbosa há mais de três décadas para fazer entregas e concorda com a doméstica sobre a implantação de um espaço exclusivo para ciclistas. Ele afirma que, apesar do grande movimento de carros na via, nunca sofreu acidentes. Mas pondera: "Também ando diariamente na Avenida Beberibe e me sinto menos seguro aqui." No entanto, nas duas horas em que esteve em vários pontos da avenida, o JC Trânsito flagrou seis ciclistas trafegando pela calçada, o que é proibido.

Para o professor Leonardo Meira, deve haver reflexões sobre qualquer forma de transporte não motorizado, porém, para a implantação, são necessárias pesquisas. "Nos domingos, a ciclofaixa é um sucesso. Isso mostra que as pessoas gostam de bicicleta, mas muitas por lazer. Será que elas deixariam o automóvel em casa para ir trabalhar assim? É isso que precisa ser estudado detalhadamente. Seguindo os preceitos técnicos, pode ser uma das soluções", defende.

Veja alguns tweets do @jctransito sobre a Avenida Rui Barbosa:

*Esta matéria faz parte da série Vias Travadas, que vai mostrar a realidade das principais ruas e avenidas marcadas pelo trânsito complicado. Será toda quinta-feira, no Twitter e no Facebook do JC Trânsito e no Portal NE10.

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