Lagoa do Paulista

Sobrevivente de tragédia, Geraldinho sonha em construir família

Publicado em 10/04/2019 , às 13 h43

Ana Maria Miranda* NE10 Interior

José Geraldo Pereira da Silva, 25 anos, foi o único sobrevivente da "Chacina Lagoa do Paulista" / Foto: arquivo pessoal

José Geraldo Pereira da Silva, 25 anos, foi o único sobrevivente da "Chacina Lagoa do Paulista" Foto: arquivo pessoal

José Geraldo Pereira da Silva, 25 anos, foi o único sobrevivente da "Chacina Lagoa do Paulista", episódio sangrento da história de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, que deixou três pessoas da mesma família mortas: a mãe, o pai e a irmã de Geraldinho. A chacina aconteceu no dia 21 de março de 2017, na residência da família, na zona rural. Daquela noite de terça-feira, Geraldinho não lembra de nada.

Depois de ser atingido por várias machadadas na cabeça, além de um tiro no cotovelo que o fez perder o braço direito, o jovem passou 58 dias no Hospital da Restauração, no Recife. "Quando eu me acordei, foram tirando os sedativos de mim, eu fui voltando aos poucos. Aí eu me perguntava porque meus familiares, meu pai, minha mãe, minha irmã não iam me visitar. Eu me perguntava, mas não perguntava para eles [os outros familiares]. Depois de mais de mês foi que eu vim saber... Não falaram para mim que eles tinham falecido, mas que estavam na mesma situação ou pior", relembrou.

Geraldinho foi acolhido pelo tios e primos

Geraldinho foi acolhido pelo tios e primos Foto: arquivo pessoal

Quem ficou com a missão de contar a pior notícia foi um padre amigo da família. "A família não sabia como falar, porque já é difícil você dizer que perdeu uma pessoa, e perder três... Aí o padre Luiz Antônio é muito amigo da gente, da família, e perguntou se podia falar pra mim e a família aceitou. O padre chegou, me confessou, me comungou e falou pra mim assim: 'seu pai, sua mãe e sua irmã estão com Jesus'. Aí eu já entendi e não queria acreditar. Aí eu abracei o padre e comecei a chorar e em seguida a primeira coisa que eu falei foi: nunca vou perder minha fé", contou.

Muito religioso, Geraldinho tem na crença em Deus a força para continuar vivendo. E para o resto da família e até os investigadores, o jovem só sobreviveu por um milagre. Há dois anos, dois jovens e um adolescente invadiram a casa da família para roubar duas motocicletas. Reconhecidos pelas vítimas, os assaltantes mataram a mãe, Joselma Pereira da Silva, 52 anos, o pai, Geraldo José da Silva, 61, e a irmã, Maria Madalena Pereira da Silva, 24, de Geraldinho.

Por causa das pancadas que recebeu na cabeça, Geraldinho perdeu massa encefálica e precisou colocar uma prótese craniana. Além disto, está com problemas na visão, também em decorrência das pancadas. As sequelas também incluem a perca da noção de espaço, que por vezes o faz bater em móveis da casa, por exemplo. A residência em que vive hoje, inclusive, recebeu algumas adaptações para facilitar a vida dele. Dois anos depois do crime, ele é acompanhado por uma psicóloga, um psiquiatra e um neurocirurgião. Como colocou a prótese na cabeça, precisa de acompanhamento para saber como o corpo está reagindo.

Do Sítio Lagoa do Paulista, só guarda as boas lembranças na mente, como os dias de domingo na missa, o São João - a festa preferida da família -, os passeios no shopping, entre outros. Ele não se sente pronto para voltar à casa em que viveu durante quase toda a vida. "A psicóloga disse que ainda é cedo. Eu também acho que eu não estou pronto. Como eu nasci e me criei lá, foram 23 anos lá, então chegar lá e não ver o pai, não ver a mãe, não ver a irmã, acho que vai ser um impacto muito forte", avaliou.

 

Depois da tragédia, Geraldinho contou com o apoio dos tios e primos. "Hoje eu tento aproveitar o máximo possível, sempre visitando eles, sempre na casa deles, de todos. Eles me acolheram na pior hora, então eu sempre vou na casa deles", contou. "Choro, sim, quando chegam datas comemorativas, final de ano, São João, aniversário do meu pai, da minha mãe, da minha irmã. A lágrima desce", revelou.

Festas de São João são as preferidas da família

Festas de São João são as preferidas da famíliaFoto: arquivo pessoal

O jovem ficou surpreso quando soube que dois dos envolvidos no crime que acabou com a família dele eram conhecidos: um morava na região, o outro foi colega dele no ensino fundamental. O desejo dele é que quando o trio saia do encarceramento, siga a vida e não provoque o mal a mais ninguém: "Jesus perdoou, quem é a gente para não perdoar?"

Sobre o próprio futuro, Geraldinho pede a Deus que consiga construir uma família e seguir os passos de Seu Geraldo e Dona Joselma. "Espero que Deus coloque uma pessoa maravilhosa na minha vida e que eu possa construir uma família. Deus me deixou aqui para isso, para seguir", afirmou.

 

 

*Colaboraram Cecília Morais, Emanuela Dias e Hélder Quaresma

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