Justiça

Dois anos após chacina de Lagoa do Paulista, crueldade ainda impressiona

Publicado em 09/04/2019 , às 13 h40

Ana Maria Miranda* NE10 Interior

Na casa em que a família morava em Lagoa do Paulista, vegetação está alta e sinais de abandono são perceptíveis / Foto: reprodução/TV Jornal Interior

Na casa em que a família morava em Lagoa do Paulista, vegetação está alta e sinais de abandono são perceptíveis Foto: reprodução/TV Jornal Interior

Vegetação alta do lado de fora, móveis cobertos e empoeirados do lado de dentro. A residência em que morava uma família de quatro pessoas - pais e um casal de filhos - no Sítio Lagoa do Paulista, na zona rural de Caruaru, agreste pernambucano, agora está com todos os sinais de abandono. Mas o descuido não tem nada a ver com o esquecimento. É justamente o contrário.

Passados dois anos da chacina que dizimou três dos quatro membros da família, ninguém consegue deixar para trás o que aconteceu na residência. No dia 21 de março de 2017, dois jovens e um adolescente invadiram a casa com o objetivo de roubar duas motocicletas. Reconhecidos pelas vítimas, os criminosos mataram o pai, a mãe e a filha. O filho homem foi o único que sobreviveu. A família e até os investigadores acreditam que por um milagre.

Era noite de terça-feira. A família se preparava para jantar na cozinha de casa quando um dos autores do crime invadiu a residência pela janela da cozinha, que fica a mais de 2 metros de altura do chão. Como de costume, a janela estava aberta para ventilar o ambiente. Todos tentaram lutar contra eles, mas não conseguiram. Depois que as vítimas reconheceram o portador da arma como um vizinho, os três ladrões se tornaram assassinos. Usando um revólver calibre 38 e ferramentas utilizadas no dia-a-dia de comunidades rurais, como um machado, mataram a mãe, Joselma Pereira da Silva, 52 anos, a filha, Maria Madalena Pereira da Silva, 24, e feriram o pai, Geraldo José da Silva, 61, e o filho, José Geraldo Pereira da Silva, 25 anos. Os homens foram levados para o Hospital Regional do Agreste (HRA). Porém, pouco depois de chegar à unidade de saúde, o idoso faleceu. Já o filho, Geraldinho, foi transferido para o Hospital da Restauração, no Recife, e tornou-se o único sobrevivente da "Chacina de Lagoa do Paulista", como o caso ficou conhecido. 

 

 

É doloroso para Josefa Silva entrar na casa em que o irmão, a cunhada e a sobrinha foram assassinados. Ela é uma das poucas dos oito irmãos de Seu Geraldo que conseguiu ir à residência nos últimos dois anos. "Esse sítio era muito organizado, as frutas eram tudo cuidadas. Agora o mato está grande. Ninguém da família está querendo vir aqui, porque ninguém aguenta chegar aqui e não encontrar eles", lamentou. Ela não consegue segurar o choro ao contar como soube da notícia. Estava com o filho, que soube através de um colega da escola cuja avó mora em Lagoa do Paulista. Sem saber como contar à mãe, ele pediu para que ela ligasse para a casa do tio. Josefa ainda tentou ligar para a sobrinha Maria Madalena, mas ela não atendeu. Já estava morta.

 

 

Pouco depois, ao saber o que havia acontecido, Josefa foi ao local e encontrou os quatro ainda caídos, em áreas diferentes da casa. Madalena morreu com um tiro na cabeça, enquanto tentava segurar a porta para evitar que o atirador entrasse. Geraldinho estava caído no banheiro. O pai e a mãe dos jovens também estavam no chão de outros cômodos da casa. Antes de deixar a residência, os criminosos ainda reviraram os móveis dos quartos à procura de dinheiro ou outros objetos de valor. Eles fugiram levando as duas motocicletas utilizadas pelos irmãos.

Assim que soube do crime, a equipe da Divisão Especializada de Apuração de Homicídios (DEAH) seguiu para o local da ocorrência. O delegado Bruno Vital relembra que ao tomar conhecimento da gravidade do crime, a equipe não teve paz: "Não descansamos até a elucidação por completo, ou seja, foram quase quatro, cinco dias sem dormir". Apesar de as motocicletas roubadas terem sido encontradas queimadas na quinta-feira, dois dias após o crime, em Serra dos Cavalos, na zona rural da cidade, o fato crucial para as investigações aconteceu no dia seguinte, quando o primeiro suspeito foi encontrado. Ele confessou a participação na chacina e a partir daí, ficou mais fácil de localizar os outros dois. Eles foram encontrados em cidades da região durante aquele fim de semana

 

 

A crueldade do triplo latrocínio foi tanta que mesmo os profissionais da polícia com anos de experiência ficaram chocados com o caso. "Eu já estava há alguns anos na divisão de homicídios. Eu nunca tinha presenciado um crime de tal brutalidade e agressividade como foi praticado. Realmente me deparei com uma cena de crime com uma verdadeira carnificina humana; jamais poderia imaginar que um ser humano poderia fazer tal maldade contra um semelhante", revelou o delegado Bruno Vital. O delegado acredita que Geraldinho só sobreviveu por um milagre. "Ele sofreu lesões gravíssimas que em condições normais levariam qualquer um a óbito", avaliou.

E é visível que Geraldinho não é mais o mesmo de dois anos atrás. Com as pancadas que recebeu de um machado na cabeça, ele perdeu bastante massa encefálica e ficou com sequelas. O tiro que levou no cotovelo fez com que ele perdesse o braço direito. Além disto, está com problemas na visão, também em decorrência das pancadas que recebeu na cabeça. Nos últimos 24 meses, Geraldinho recebeu auxílio doença e passará por outra perícia para saber se continuará recebendo o auxílio.

O jovem ficou surpreso quando soube que dois dos envolvidos no crime que acabou com a família dele eram conhecidos: um morava na região, o outro foi colega dele no ensino fundamental. Muito religioso, Geraldinho tem na fé a coragem para seguir em frente e perdoa os assassinos da mãe, do pai e da irmã: "Com Deus, a gente tem tudo e se Deus está me dando força para seguir na vida, entrego eles na mão de Deus". O desejo dele é que quando o trio saia do encarceramento, siga a vida e não provoque o mal a mais ninguém. Sobre o próprio futuro, Geraldinho pede à divindade superior que consiga construir uma família e seguir os passos de Seu Geraldo e Dona Joselma.

 

 

Vizinha da família, Maria de Lourdes Santos decidiu se mudar após a chacina

Vizinha da família, Maria de Lourdes Santos decidiu se mudar após a chacina Foto: reprodução/TV Jornal Interior

Apesar de todo o apoio dado a Geraldinho, a tia Josefa Silva sabe que nunca será suficiente, pois não preencherá o vazio que ficou na vida dele depois daquela noite aterrorizante. "É muito triste para ele, porque eles viviam bem aconchegados. Eles eram muito unidos entre si e para ele [Geraldinho] foi mais difícil ainda. Ele perdeu o bem maior que tinha, a família".

O triplo latrocínio também impactou toda a vizinhança. Poucos moradores antigos quiseram ficar na mesma área em que uma tragédia bateu na porta de pessoas que eles conheciam há tanto tempo. Naquela noite, Maria de Lourdes Santos ouviu os tiros e os gritos da família pedindo ajuda. Ninguém conseguia entender o que estava acontecendo. Na mesma semana, saiu da casa em que morava há 45 anos: "Quando eu vou lá, me sinto mal e vou embora". A lembrança do crime assombra o sono da idosa até hoje. "Tem hora que vou dormir e começo a me lembrar tudinho. Não sai, não".

Condenação

Promotor de Justiça George Pessoa atuou no caso

Promotor de Justiça George Pessoa atuou no casoFoto: reprodução/TV Jornal Interior

Depois do crime, vários órgãos atuaram para identificar, prender, denunciar e sentenciar os três envolvidos. Durante o processo, o promotor de Justiça George Pessoa observou que os acusados tentaram de toda forma minimizar a participação, tentando imputar ao menor a parte mais grave das condutas, "certamente numa tentativa de buscar a redução da pena". Porém, a postura deles não condizia com as provas. "Ficou demonstrado de forma clara e inequívoca que eles tiveram participação determinante nos crimes", cravou o promotor. Ele acredita que a Justiça foi feita e ficou satisfeito com a atuação de todos os órgãos no caso.

 

 

A reprodução simulada realizada no mês seguinte ao crime contribuiu para dirimir todas as dúvidas sobre a dinâmica do triplo latrocínio. "É notório que quando eles foram presos, cada um queria se eximir de sua parte", opinou o perito criminal Ismar Bruno. Foi com a reconstituição que a polícia descobriu que João Anderson foi o autor dos disparos. Ele utilizou um revólver calibre 38, que ainda foi recarregado. A investigação também revelou que todas as munições foram disparadas.

Na sentença, Rafael Sebastião da Silva, 21 anos, foi condenado a 93 anos, oito meses e 25 dias de reclusão, além de 860 dias-multa, pelos três latrocínios consumados e um tentado, associação criminosa e corrupção de menor. João Anderson Gomes da Silva Pereira, 25, foi condenado a 97 anos, 11 meses e 20 dias de reclusão, além de 1.050 dias-multa, pelos três latrocínios consumados, um latrocínio tentado, associação criminosa, corrupção de menor e porte de arma. Os dois passaram um período na Penitenciária Juiz Plácido de Souza e depois foram transferidos para a Penitenciária de Tacaimbó. Ambos cumpriram dois anos da pena.

 

 

Na época com 17 anos, o terceiro envolvido foi encaminhado para uma unidade da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase). Hoje com 19, R.B.S permanece cumprindo medida socioeducativa. A unidade não pode ser revelada para preservar o sigilo determinado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Embora as penas sejam extensas e exista a possibilidade de João e Rafael passarem a vida inteira na cadeia, a sensação que fica é que a condenação nunca será suficiente.

 

 *Colaboraram Cecília Morais, Luiz Carlos Fernandes e Edeilson Lins

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  • De: vitor- 11/04/2019 07:36 (...) é deixará a Funase aos 21 anos.(é brasil).
  • De: Luiz Félix de Freitas Silva- 10/04/2019 17:15 Que esses três vermes asquerosos e covardes sofram terrivelmente na cadeia e sejam enviados ao inferno de forma tenebrosa. É o desejo de todos de sã consciência.

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