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Foco ambiental

Tatu-bola pra frente

Publicado em 01/07/2014, às 18h15 | Atualizado em 22/07/2014, às 16h12

Por Ricardo Braga

Era muito comum, mais do que hoje, o menino do mato treinar para ser caçador atirando com seu bodoque em passarinho e calango desprevenidos. Uma esticada da borracha, a largada da pedra entre os dedos e zupe... o bichinho já caía imóvel, sem chance de voar ou correr. Para que, o menino não sabia, já que a caça ficava ali mesmo, abandonada como se nunca tivera vivido. Era diversão besta, mas aceita por todos, reflexo da ideia de que para ser macho é preciso dominar.

Mais tarde, a espingarda fazia do adolescente um homem, atirando chumbo no alvo vivo, capaz de matar teju, raposa, preá e tatu. Esses eram levados pra casa, como troféu, prova de determinação e capacidade de perseguir a vítima.  Não diria coragem porque quem tem ao seu lado cães farejadores e uma arma de fogo é um covarde que nem precisa se aproximar da sua presa para a agressão fatal.

Dessas caças, a mais cobiçada era o tatu, costumeiramente vasculhado por caçadores e um punhado de cachorros treinados. Acuados no buraco, perdem até mesmo a chance da fuga, permitida àqueles que correm em campo aberto ou que sabem subir em árvores.

Vez por outra, encontro alguém que recorda ter corrido atrás e caçado tatus, no Sertão ou mesmo por aqui, na Zona da Mata. Lembranças sem remorso, embora digam que não repetiriam o gesto, não sei se por conveniência social ou por lampejo de consciência conservacionista.

Hoje existem menos caçadores e, ironicamente, menos tatus. Além da caça, a destruição dos ambientes onde vivem aumenta o risco de extinção desses bichos.

Das onze espécies que ocorrem no País, o tatu-bola é o único 100% brasileiro, vivendo nas caatingas de solo arenoso. Não cava buraco e, ao perceber a presença de predadores naturais, o animal esconde o tronco, a cabeça e as patas no interior da dura carapaça, que se fecha e fica em formato de bola, quase invulnerável. Porém não consegue se proteger do homem caçador.

Mas logo o Fuleco, o nosso tatu-bola, símbolo da Copa? Isso mesmo! O apelido - mistura de futebol com ecologia - quase não lhe rendeu vantagem. É certo que ajudou à Fifa e seus financiadores a faturar ainda mais no megaevento do grande capital, mas não possibilitou qualquer valor financeiro para a sua proteção, gerado pelas entradas nos estádios e patrocínios.

Pois é, enquanto o mascote Fuleco está a salvo, o nosso "Tolypeutes tricinctus" é uma espécie criticamente em perigo, como diz o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção.

Isso não é justo, moral ou ético. Precisamos da implantação imediata do Plano de Ação Nacional para Conservação do Tatu-bola, anunciado pelo Ministério do Meio Ambiente. Mais: queremos uma Unidade de Conservação na Caatinga, que preserve o seu habitat.

Só assim poderemos gritar: Tatu-bola pra frente!

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

PALAVRAS-CHAVE: tatu-bola

Foco ambiental Ricardo Braga é ambientalista, professor da UFPE e ex-secretário executivo de Meio Ambiente de Pernambuco. E-mail: ricardobraga.jc@gmail.com. ricardobraga.jc@gmail.com

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