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O consumismo e a legitimação social

Publicado em 03/06/2014, às 09h25 | Atualizado em 18/07/2014, às 20h00

Por Ricardo Braga

A necessidade de ser reconhecido em um mundo competitivo, a pressa por resultados e a sensação de inadimplência consigo mesmo e com os outros levam, frequentemente, a pessoa a buscar mecanismos de compensação para se legitimar na sociedade.

O aspecto da legitimação social evidencia-se como argumento chave usado pela propaganda e marketing, conduzindo o cidadão, pressionado, ao consumismo. Deve-se, no entanto, distinguir o consumo consciente de bens e serviços necessários a uma vida confortável e criativa, do consumismo desenfreado, uma versão deturpada do primeiro, em que o consumo excessivo atende a necessidades criadas artificialmente, de natureza psicossocial.

O consumismo passa a ser a busca de legitimação por meio do acesso ou posse de símbolos de poder - social ou econômico - como o status do bairro em que mora, a moda das roupas que adquire ou a marca do carro comprado a crédito, que ocupam o imaginário coletivo. No fundo pode-se considerar o consumismo como um deslocamento da preocupação com coisas que seriam mais centrais na vida, mas que não estão podendo ser resolvidas. Este “estilo de vida”, em vez de contribuir para a felicidade, pode levar à eterna insatisfação por substituir reais fontes de prazer, exigindo, portanto, sempre novos consumos para renovar momentos de efêmera satisfação.

O resultado de tudo isso já era previsto por Henry Ford na década de 1930, quando, ao fabricar o primeiro modelo de automóvel em série, vaticinou a importância de estimular a formação de uma massa consumidora, levando um monte de gente à necessidade de ganhar dinheiro para comprar mais automóveis, o que levaria à ampliação da classe dos assalariados consumidores, numa espiral do capital sem fim. O marketing e a propaganda passaram então a ser grandes aliados da teoria Fordista e das que lhe sucederam, no plano da produção versus consumo.

Mas para manter essa espiral, além de incorporar novas massas de consumidores, era oportuno regular o tempo de vida útil dos produtos, estabelecendo-se a obsolescência programada. Atualmente se acha até normal que um equipamento dure apenas alguns anos, descartável, portanto, até porque os novos modelos, embora possuam recursos frequentemente não utilizados, passam a alimentar a febre de consumir as novidades.

Mas negar o consumismo não é abdicar do conforto e do acesso a novidades que facilitam a vida de cada um, mas rejeitar ser guiado por valores que nos dissolvem enquanto cidadãos conscientes,exaurem recursos naturais, esbanjam energia, desperdiçam água e subtraem as chances de uma maior distributividade, em uma sociedade extremamente desigual sob o ponto de vista econômico e de acesso às condições básicas de vida, como a alimentação, a saúde, a educação, a segurança e a habitabilidade.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

PALAVRAS-CHAVE:

Foco ambiental Ricardo Braga é ambientalista, professor da UFPE e ex-secretário executivo de Meio Ambiente de Pernambuco. E-mail: ricardobraga.jc@gmail.com. ricardobraga.jc@gmail.com

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