Juazeiro do Recife

Publicado em 26/02/2014, às 15h53 | Atualizado em 19/07/2014, às 03h45

Por Ricardo Braga

Se você quiser conhecer o juazeiro, onde vai procurá-lo? No Sertão, naturalmente. Até porque ele é quase árvore símbolo da Caatinga, ecossistema que só ocorre no Brasil, mais particularmente no Nordeste.

Sempre com folhas verdes e copa vistosa, geralmente solitário em meio à maioria da vegetação seca quase o ano inteiro, o juazeiro é visto como ícone da resistência e do perfil do sertanejo nordestino.

A estiagem prolongada nega água aos viventes, por isso o angico, o mulungu e o umbuzeiro perdem suas folhas para não morrer. Vão-se os anéis, ficam os dedos. Os cactos chegam a abdicar permanentemente das folhas, transformando-as em espinhos, para perder menos água por transpiração e, assim, acumulá-la no caule verde e suculento, tão procurado pelas cabras quando já não resta capim.

Pior ainda quando duas ou três longas estiagens anuais se sucedem, dando vez à seca, difícil de enfrentar quando não se tem uma estratégia de convivência. Se nenhuma gota d’água cai no chão desnudo e seco, e o céu permanece impiedosamente azul, as aves se afastam, as abelhas desaparecem e a vegetação perde as suas vestes. É hora do silêncio, do sol a pino, do mato branco, da caatinga, no dizer dos índios que foram aqui dizimados pelos colonizadores.

Geralmente solitário, o juazeiro é visto como ícone da resistência e do perfil do sertanejo nordestino.

É a vez de o juazeiro dar sombra, acolher os viajantes, oferecer pousio ao gado solto e alimentá-lo com as folhas mais baixas e seus juás maduros. Receber também em seus galhos de microclima ameno os pássaros que esqueceram de migrar e insistem em permanecer no território onde nasceram.

Floresce na estiagem, em profusão, como um grito de certeza, de que é dono do tempo e do seu destino, capaz de atravessar os períodos críticos como quem conhece os meandros da vida. Por isso, seu néctar é a garantia de sobrevivência das abelhas quando já não exista alimento por perto que as permita produzir novo mel. Conserva, assim, as nativas abelhas arapuá, mosquito, breu e moça branca. Com elas, também se autogarante enquanto espécie, graças à polinização cruzada feita por esses insetos perambulantes, de flor em flor. É a cooperação natural, pouco visível e sábia, dádiva da evolução das espécies.

Mas que força e energia fazem dele o verde na paisagem cinza? É certo que quase todas as plantas da caatinga explodem em folhas logo nas primeiras chuvas, quando a trama das raízes superficiais transformam os pingos d’água em seiva. Mas é certo também que, quase tão rápido, entristecem e perdem as folhas quando o chão seca. Diferente da maioria, o juazeiro sabe buscar água distante, com sua raiz profunda. Desce fundo, até alcançar água nos poros de um terreno arenoso, ou encontrar um veio d’água em fissura da rocha cristalina.

Parece ou não com o homem sertanejo da zona rural que, quando não tem água por perto, vai buscar longe para se manter vivo e de espírito alerta?

Mas onde procurar mesmo esta árvore? Em Juazeiro da Bahia ou em Juazeiro do Ceará? Não precisa ir tão longe: pode conhecer o juazeiro do Recife. Tenho visto muitos por aqui, em quintais do Poço da Panela e de Dois Irmãos, além da praça Euclides da Cunha, em frente ao Clube Internacional. Aqui essa árvore cresce até mais do que na caatinga e fica muito frondosa, justo porque encontra mais facilmente a água no subsolo.

Será bom plantá-la nas calçadas e praças da cidade, onde crianças e adultos poderão conhecê-la e trabalhar a sua origem como se tem feito com o baobá, da savana africana.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

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Foco ambiental Ricardo Braga é ambientalista, professor da UFPE e ex-secretário executivo de Meio Ambiente de Pernambuco. E-mail: ricardobraga.jc@gmail.com. ricardobraga.jc@gmail.com

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