A mulher e a lei

Saiba o que a mulher ameaçada deve fazer para se libertar do agressor

Publicado em 22/01/2018, às 07h15

Por Gleide Ângelo

''Por meio de constantes ameaças, as mulheres vão deixando seus sonhos e objetivos de lado", diz Gleide Foto: Heudes Régis

No artigo de hoje falarei sobre o crime que tem maior incidência na violência doméstica e familiar, a ameaça. Mais de 30% dos registros de boletins de ocorrências no estado de Pernambuco são pelo crime de ameaça. Isso significa que as mulheres não estão mais esperando ser agredidas e lesionadas para procurar uma delegacia. Já ouvi muitas histórias de mulheres vítimas de violência doméstica, e a conclusão que chego é que mais uma vez, a violência doméstica é explicada pelo ciclo da violência. O homem agressor quer dominar a mulher pelo medo, pelo isolamento. Se ela não desobedecer o "comando" dele, viverá muitos anos sobre o domínio do medo.

Porém, a sociedade mesmo machista e patriarcal teve uma evolução, onde muitas mulheres não admitem mais serem "comandadas" por agressores. As mulheres estão em busca do crescimento profissional e independência, se insurgindo contra esse machismo covarde. É a partir daí que o agressor vai aumentando a intensidade da violência. A ameaça é a forma que o dominador tem de controlar a mulher, dizendo que se ela desobedecê-lo, ele irá matá-la. Alguns ainda dizem que matarão a família dela, os filhos. Por meio de constantes ameaças, as mulheres vão deixando seus sonhos e objetivos para trás, por viverem em uma relação abusiva de medo e tensão.

É muito importante que as ameaças sejam denunciadas na delegacia, porque o próximo passo do ciclo da violência são as agressões, lesões corporais. Essa é a melhor forma de proteção que a mulher tem. Com o registro do BO e requerimento das medidas protetivas de urgência, a mulher está dando o primeiro e grande passo para a libertação. Com o deferimento das medidas protetivas pelo Poder Judiciário, o agressor é retirado de casa e não poderá se aproximar da mulher. O descumprimento das medidas pode gerar uma prisão preventiva ou o uso de uma tornozeleira eletrônica pelo agressor.

"Tinha tanto medo das ameaças que passei três anos só me vestindo com as roupas que ele escolhia"

A vida de Verônica não é muito diferente da vida de muitas mulheres que vivem constantemente ameaçadas. Ela mesmo narrou a sua história, "conheci Pedro há cinco anos e fomos casados por três anos. Nos dois primeiros anos de namoro, nunca observei nenhum comportamento estranho dele. Sempre me tratou com respeito, convivíamos com meus pais em harmonia. A única coisa que me chamava a atenção é que ele sempre insistia em casar. Isso me deixava um pouco insegura, porque com as minhas amigas era exatamente o oposto, elas querendo casar e os namorados criando desculpas. No caso de Pedro, ele falava disso todos os dias, e ainda me acusava de não amá-lo o suficiente para querer casar".

Depois de muita insistência, Verônica resolver aceitar o pedido de Pedro e se casaram, "foi uma linda cerimônia, com nosso familiares, eu me senti a mulher mais feliz do mundo. Porém, isso não durou nem um dia. Na lua de mel, quando estávamos viajando ele foi logo dizendo: pronto, agora você é minha mulher, e mulher minha só usa saia e vestido abaixo do joelho, não usa shorts, não frequenta casa de amigas, não estuda e sai à noite e não trabalha. Quem vai sustentar a casa sou eu, e você só sai de casa comigo".

Verônica disse que ficou sem ação e assustada quando ouviu tudo aquilo, e sabia que Pedro estava falando sério. Ela disse que ainda fez alguns questionamentos, mas Pedro começou a falar grosso com ignorância. Ela relembra, "voltamos da lua de mel e todos notaram que eu estava diferente, mas nunca falei nada com minhas amigas e minha família, porque simplesmente eu estava com muito medo de Pedro. Ele dizia que se eu falasse, ele mataria minha mãe e minha melhor amiga. Passei três anos só saindo com ele, com a roupa que ele escolhia. Só podia comer o que ele gostava, porque tinha que fazer as comidas que ele escolhesse. Estava vivendo um grande inferno, estava sendo prisioneira dentro da minha casa".

Quando Verônica estava com Pedro e as pessoas perguntavam o porque dela ter mudado tanto, Pedro mesmo respondia que era escolha dela, ser uma dona de casa e ficar mais tempo em casa. Com isso o tempo foi passando, até completar três anos de casamento, "no dia em que acordei e vi que estava fazendo três anos de sofrimento, dor, prisão, humilhação, só tive uma atitude, me levantei, troquei de roupa e sai correndo escondida. Fui para a casa dos meus pais, onde cheguei aos prantos. Eu chorava tanto que meus pais não conseguiam entender o que eu falava. Tomei um remédio para me acalmar e comecei a contar tudo o que estava ocorrendo. Eu tremia muito, de medo. Tinha certeza que Pedro ia chegar ali e matar todos nós. Mas meus pais foram me acalmando e chamaram um médico, amigo da família. Fui me tranquilizando e falei tudo, foi uma grande libertação para mim".

Quando Pedro chegou em casa para almoçar e não viu Verônica, começou a telefonar para ela, "vi o telefone tocando e comecei a tremer de medo, meu pai atendeu e disse que eu estava em segurança na casa dele, e se ele ousasse em chegar perto de mim, chamaria a polícia. Fomos até a delegacia de polícia, contei tudo, registrei um BO, pedi as medidas protetivas e comecei a frequentar um psicólogo, porque eu estava com muito medo. Eu não saía de casa sozinha, achava que Pedro estava em todos os lugares. Ia para as consultas com meus irmãos".

Depois de quatro meses na casa dos pais, Pedro seguiu Verônica em uma consulta médica e a abordou na rua. "Eu estava com meu pai quando ele apareceu de repente e disse que queria falar comigo. Eu me agarrei com o meu pai e comecei a chorar. Meu pai disse que ia chamar a polícia para prendê-lo, e ele foi embora. Entrei com o pedido de divórcio e estou mais fortalecida. Continuo com acompanhamento psicológico e a única certeza que tenho é que Pedro entrou na minha vida para me destruir. Agradeço a minha família por todo o apoio que estão me dando. Se não fosse eles, morreria prisioneira de um homem perverso, agressor e dominador".

Por medo de ser preso, Pedro nunca mais procurou por Verônica, porque ele sabe que agora Verônica está protegida pelos familiares que não pensarão duas vezes para denunciá-lo novamente. Verônica disse que ficou sabendo por amigos que Pedro está em outro relacionamento amoroso, com uma jovem que só faz elogios a ele. E Verônica encerrou, "ele está fazendo com ela exatamente o que fez comigo, foi um namorado amoroso, e depois se revelou. Espero que essa moça consiga enxergá-lo e não passe por nada do que passei".

Amiga, se você está sendo ameaçada pelo seu companheiro ou marido, não fique aterrorizada. A finalidade das ameaças é exatamente essa, a de te assustar, amedrontar, paralisar. O agressor quer te dominar pelo medo para que você faça tudo o que ele quer. Se você se insurgir contra as ordens dele, mas continuar com ele, as agressões aumentarão, conforme falei do ciclo da violência. A ameaça evolui para as lesões corporais e podem chegar ao feminicídio. Você precisa romper com esse ciclo agora. Veja o que ocorreu com Verônica, que passou três longos anos sofrendo todo o tipo de abuso. Você é um ser livre, dona da sua vida. Não deixe que nenhum agressor/dominador diga o que você tem que comer, vestir, fazer. Você é muito mais forte do que pensa, e depois que você se afastar dele, verá o quanto aquela relação te fazia mal.

Busque uma relação saudável, com um companheiro que te respeite e construa sua felicidade com você. O dominador não quer sua alegria, quer sua tristeza. Ele não quer sua vida, quer sua morte. Por isso, não coloque a sua vida nas mãos de ninguém. Tome a sua vida de volta, vá até uma delegacia de polícia e denuncie o agressor. A sua felicidade e liberdade depende de você. Escolha ser feliz!.

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA!

EM QUAIS ÓRGÃOS BUSCAR AJUDA VIOLENCIA CONTRA A MULHER:

» Centro de Referência Clarice Lispector – (81) 3355.3008/ 3009/ 3010
» Centro de Referência da Mulher Maristela Just - (81) 3468-2485
» Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon - 0800.281.2008
» Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à Mulher – (81) 3524.9107
» Central de atendimento Cidadã pernambucana 0800.281.8187
» Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180
» Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo) - 190 MULHER

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A mulher e a lei Gleide Ângelo é delegada especial, gestora do Departamento da Mulher. gleideangelo@gmail.com

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  • De: ronaldo- 26/01/2018 19:58 Acho que as mulheres deveriam procurar saber bem direitinho com quem vão se relacionar,pois,movidas por delírios sentimentais,não ouvem quem mostra quem é o seu "amor" e,no final,quebram a cara e,às vezes, perdem a vida. Vale salientar que muitas delas amam "MACHÕES",mesmo sabendo que a maioria deles não presta e serem metidos com bandidagem.
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