Saúde

Oito anos depois, único brasileiro curado da raiva humana vive em condições precárias

Publicado em 27/07/2016 , às 10 h33

NE10 Por Elvis de Lima* com colaboração de Marília Banholzer

O NE10 visitou o jovem em Floresta. Entre os vários sonhos, está o de possuir uma cadeira de rodas elétrica / Foto: Elvis de Lima/especial para o NE10

O NE10 visitou o jovem em Floresta. Entre os vários sonhos, está o de possuir uma cadeira de rodas elétrica Foto: Elvis de Lima/especial para o NE10

FLORESTA - "Medo, medo, eu não tenho não, mas fico com as pernas tremendo quando um morcego chega perto de mim”, diz, com a voz fraca, o jovem Marciano Menezes da Silva, hoje com 23 anos. Morador do município de Floresta, no Sertão de Pernambuco, 437 km distante da capital do Estado, Recife,  Marciano vai  celebrar, em 18 de setembro, oito anos de um marco na medicina mundial. Quando tinha apenas 16 anos o rapaz se tornou o primeiro brasileiro a sobreviver à raiva humana, uma doença tida como 100% fatal. Mesmo com os avanços na medicina, o jovem é apenas um dos únicos três casos do mundo de pessoas que foram curadas do vírus.  

O adolescente guerreiro, que surpreendeu até mesmo a equipe médica que o tratou no Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC), no Recife, convive hoje com as sequelas de uma luta árdua pela vida. Pernas e braços atrofiados lhes impedem de ter a mesma vida de antes de ser mordido no tornozelo por um morcego hematófago enquanto dormia na casa de taipa onde morava à época. As dificuldades em falar também não lhe tiram a capacidade de expressar o quanto se sente feliz em ter sobrevivido à raiva.

"O amor que eu tenho pelos meus é muito grande. Eu agradeço muito a eles por terem vencido essa batalha comigo", ressaltou Marciano que hoje vive sentado numa cadeira de balanço vendo a paisagem do Sertão, assistindo TV, tomando um bom cafezinho e curtindo seu pássaro de estimação. Ele mora com os pais e parte dos sete irmãos numa casa vizinha à de onde foi mordido pelo morcego.

Ninguém imaginava que iria acontecer uma coisa dessas Marciano Menezes

O maior sonho do jovem pernambucano ainda é voltar a andar. Mas ele enfrenta dificuldades para receber os medicamentos controlados que impedem, entre outras coisas, que ele tenha crises convulsivas. Marciano também está há três meses sem passar pelas sessões de fisioterapia que deveriam lhe ajudar no processo de caminhar - ou voltar subir, sozinho, no lombo de um cavalo, como fazia antes da doença. Antes ele fazia duas sessões por semana numa unidade de saúde em Floresta e era levado ao local por um veículo cedido pela prefeitura.

Enquanto o sonho de voltar a andar não é realizado, Marciano deseja ter um pouco mais mobilidade e independência. Hoje ele não tem cadeira de rodas e fica de olho nos modelos motorizados. Mas para quem mora numa casa humilde na zona rural de Floresta, que ainda usa fogão à lenha, esse desejo vai parecendo cada vez mais distante de ser atendido.

Mesmo com as dificuldades, o jovem se mostra orgulhoso com o fato de ter sido forte o suficiente para, aos 15 anos, tornar-se o primeiro brasileiro a desafiar, e vencer, o vírus da raiva. “Quando eu contei [que fui mordido por um morcego] o povo não queria acreditar. Disseram que era mentira. Ninguém imaginava que iria acontecer uma coisa dessa”, relembrou.

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Marciano, o jovem que venceu a raiva

A chegada da noite em Floresta faz Marciano ficar mais atento à movimentação dos morcegos que rondam sua casa
Crédito: Elvis de Lima/Especial para o NE10

Marciano, o jovem que venceu a raiva

Apesar dos receios, após contrair raiva humana, o jovem de 23 anos segue esperançoso para voltar a ter o movimento das pernas
Crédito: Elvis de Lima/Especial para o NE10

Marciano, o jovem que venceu a raiva

Hoje ele vive numa casa vizinha àquela onde foi mordido no tornozelo por um morcego hematófago
Crédito: Elvis de Lima/Especial para o NE10

Marciano, o jovem que venceu a raiva

Com dificuldades de locomoção, precisa de ajuda para realizar atividades que antes eram seu xodó, como andar à cavalo
Crédito: Elvis de Lima/Especial para o NE10

Marciano, o jovem que venceu a raiva

Mas seu pai atende seu pedido sempre que deseja sentir o prazer de subir no lombo do cavalo
Crédito: Elvis de Lima/Especial para o NE10

Marciano, o jovem que venceu a raiva

Em meio à luta para voltar a andar, sua grande companheiro é a TV da casa simples que divide com os pais e imãos
Crédito: Elvis de Lima/Especial para o NE10

Marciano, o jovem que venceu a raiva

A casa onde houve o incidente com o morcego que lhe infectou com raiva fica ao lado daquela em que vive hoje em dia
Crédito: Elvis de Lima/Especial para o NE10

O dia em que Marciano foi mordido por um morcego

Era domingo, dia 7 de setembro de 2008, quando Marciano foi atacado pelo animal. Morando a cerca de 65 km distante do centro de Floresta e sem transporte, o pai, João Menezes, só conseguiu levar o garoto a um hospital quando ele começou a perder o movimento das pernas. "No início a gente pensava que era meningite. Só depois de vários exames foi descoberto que ele estava com raiva", relembrou João. "Os médicos deram apenas 7 dias de vida ao meu filho, devido ao estado em que ele estava. Mas eu nunca desisti", disse o pai.

''Eu mesmo não acreditava, mas Marciano foi resistindo à infecção'', disse o médico Vicente Vaz

''Eu mesmo não acreditava, mas Marciano foi resistindo à infecção'', disse o médico Vicente VazFoto: Acervo JC Imagem

O TRATAMENTO - Os médicos que trataram Marciano Menezes, no Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC), no Recife, não sabem especificar o que foi determinante para a cura do garoto, considerado o primeiro brasileiro a se ver livre do vírus da raiva. "Era um menino muito valente", lembrou o infectologista Vicente Vaz, que fez parte da equipe multidisciplinar que cuidou do pernambucano que passou 11 meses internado.

No período de quase um ano de internamento, o garoto foi submetido a diversos procedimentos médicos, a maior parte deles baseada no Protocolo de Milwaukee, criado pelo norte-americano Rodney Willoughby que, em 2004, conseguiu tratar uma paciente com raiva com sucesso. "Em 2005 saiu um artigo numa revista médica falando do protocolo criado pelo dr. Willoughby. Depois disso, tivemos uma paciente no Oswaldo Cruz na qual tentamos usar a técnica, mas ela morreu muito rápido. Depois, quando recebemos Marciano, eu e dr. Gustavo Trindade Filho, que era o chefe da UTI na época, decidimos tentar novamente e deu certo", contou Vicente Vaz.

Os médicos pernambucanos da equipe médica de Marciano entraram em contato com Rodney Willoughby e conseguiram reproduzir o protocolo criado pelo norte-americano, baseado nas condições do Hospital Universitário Oswaldo Cruz. "Eu mesmo não acreditava, mas o Marciano foi resistindo à infecção, o Ministério da Saúde se envolveu, o próprio Willoughby veio para o Recife, e nós conseguimos ter sucesso", ressaltou o infectologista Vicente Vaz.

Marciano deixou o hospital em 2009, 11 meses após ser mordido

Marciano deixou o hospital em 2009, 11 meses após ser mordido Foto: Alexandre Severo/Acervo JC Imagem

Desde o caso de Marciano Menezes, curado em 2009, o HUOC não recebeu mais pacientes diagnosticados com raiva. Ele também é apenas o terceiro, no mundo, a superar a raiva, e o segundo a sobreviver, já que uma colombiana que se livrou do vírus acabou morrendo por complicações clínicas posteriores. Em todos os casos, inclusive, foi usado o protocolo de tratamento criado por Willoughby, que é baseado no uso de antivirais, sedativos e anestésicos injetáveis.

Apesar do sucesso do protocolo, o mesmo não deve considerado a cura para esta doença que é extremamente fatal. No mundo já foram feitas ao menos 16 tentativas desde 2004 e apenas três obtiveram sucesso. O caso bem sucedido do pernambucano Marciano, no entanto, mudou a perspectiva dos profissionais que trabalharam naquele tratamento.

"A raiva é uma doença que os médicos sempre tentavam tratar de um modo diferente, encontrar uma saída, mas nunca dava certo. Em geral, inclusive, quando recebíamos um paciente com raiva nós dávamos medicamentos para que ele sofresse menos, mas sem muitas expectativas de cura. Hoje não. Agora a gente sabe que é preciso estar sempre estudando, buscando saídas, caminhos. Acho que o caso de Marciano mudou a vida de todos que se envolveram", disse Vicente Vaz.

O médico infectologista do HUOC ainda afirmou que não é possível decretar se foi o protocolo, a infecção por um vírus mais fraco que afetou o garoto, ou a força de vontade de Marciano que foi determinante para evitar sua morte pela doença. "Acredito que foi a união dos três fatores. Sem dúvida esse menino foi muito forte em resistir a tudo que o protocolo exige que seja feito para tentar eliminar o vírus da raiva."

A doença é infecciosa e leva a óbito praticamente 100% dos pacientes

A DOENÇA - O ser humano contrai a raiva pela mordida e arranhões de animais contaminados pelo vírus, como cachorros, gatos, macacos e morcegos. A doença é infecciosa e leva a óbito praticamente 100% dos pacientes contaminados. Para evitar a enfermidade é preciso lavar bem o local ferido logo após a mordida e receber imediatamente o soro e ou a vacina. Salivação excessiva, convulsões, mudanças de comportamento e fortes dores de cabeça são os principais sintomas.

Em Pernambuco, desde o caso de Marciano, em 2008, não houve um novo registro de raiva em humanos. Até hoje, inclusive, apenas quatro animais domésticos foram diagnosticados com a doença, sendo dois em 2012, um em 2015 e outro este ano. No Brasil o último caso de raiva humano registrado ocorreu em maio deste ano. A situação em Roraima, mas o paciente, um adolescente de 14 anos, faleceu 45 dias após ter sido mordido por um gato.

* Elvis de Lima é jornalista e assina o Blog do Elvis, na cidade de Floresta

PALAVRAS-CHAVE: sertão interior

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  • De: Patrícia- 31/10/2016 15:26 Matéria para seminário
  • De: Henrique Bandeira- 30/07/2016 01:20 No tocante à cadeira de rodas elétrica, acho viável solicitar à família do rapaz que disponibilize uma conta poupança para doações, uma vez que o Banco do Brasil dispõe de uma linha de crédito denominada " mobilidade", o que facilita bastante a aquisição para ele de um item caro como uma cadeira de rodas elétrica. Meu pai, por exemplo, possui uma cadeira motorizada que é financiada pelo BB e posso garantir que o custo é mais acessível do que vocês imaginam.
  • De: Olga- 28/07/2016 13:49 Eu estava no Recife quando aconteceu este caso. Nunca mais esqueci. Tenho pensado muitas vezes , em como estaria agora. Ainda bem que agora soube noticias deles. Espero que vá melhorando, tanto, como ele deseja.
  • De: Silvio Jáder Magalhães- 28/07/2016 08:40 Onde está o Caio Manisoba,Dep.federal e filho da prefeita,para ajudar este rapaz.
  • De: Walter Buff Junior- 27/07/2016 19:33 O vírus rábico progride a partir do ferimento através dos nervos até o cérebro, via centrípeta, no caso do Marciano o morcego sugou o sangue no pé, deixando alí o vírus, fato que tornava mais longa a viagem até o cérebro, o que talvez tenha permitido ao organismo desenvolver alguma resposta imune (defesa), somada ao protocolo médico e à extraordinária determinação do vencedor da rara e insólita batalha, deixou aprendizado para todos nós.
  • De: Pelegrini- 27/07/2016 18:56 Belo exemplo se superação!! Parabéns ao UOL pela reportagem. (só faltou divulgar uma conta bancária para para que possamos ajudar na aquisição da cadeira .
  • De: Sidnei de Paula- 27/07/2016 18:36 Oi pessoal tudo bem,são feitas tantas vaquinhas na net para coisas inuteis, para dilma viajar de avião,para não sei quem fazer tratamento dentario,e assim vai;porque não fazemos uma vaquinha para ajudar o Marciano. Uma cadeira eletrica usada custa em media 5.000 uma nova creio eu 10.000 é rapido 10.000 pessoas doando 1 real,vamos ajuda-lo
  • De: marcos- 27/07/2016 17:52 Muito feliz o comentário de Nelson Vieira, precisamos sim, se mobilizar em pró desse guerreiro e esquecer que o estado tem obrigação de ajudar.
  • De: Carmen Silvia - 27/07/2016 17:51 Poderíamos iniciar uma campanha para aquisição da cadeira. Se várias pessoas participarem acho que não fica pesado pra ninguém Temos a AACCD que cuida de proteses e reabilitação. Talvez um contato da equipe médica seja promissor
  • De: cleidi cavalcanti- 27/07/2016 17:36 Absurdo total, enquanto ele passa todas estas necessidades, vemos o Brasil gastar milhões com as Olimpíadas e outras trapaças. Meu Deus tenha misericórdia do ser humano egoísta que só pensa em si.
  • De: Barbara Vitex- 27/07/2016 17:35 O nordestino é antes de tudo um forte. Gostaria que médicos e fisioterapeutas das cidades próximas ajudassem esse guerreiro. Sou do Rio de Janeiro e rezarei todos os dias por sua recuperação.
  • De: Tricolor Paulista- 27/07/2016 16:55 Enquanto isso o FDP do Cunha faz churrasco com o nosso dinheiro! Não sou petista mas faço a pergunta e as panelas não baterão mais ? Brasil um país para poucos.
  • De: Marcos- 27/07/2016 16:42 Muito feliz o comentário de Nelson Vieira, precisamos sim, mobilizar para ajudar esse jovem guerreiro e não esperar o poder público.
  • De: Julio Cesar Barbosa- 27/07/2016 16:40 De fato, Ursula. É revoltante o que fizeram com este país.
  • De: alessandro Bortman- 27/07/2016 16:31 Gostaria que a redação do UOL entrasse em contato comigo para tentarmos viabilizar uma cadeira de rodas para o jovem Marciano.
  • De: Antonio Carvalho Filho- 27/07/2016 16:11 O dado sobre o ultimo caso registrado está errado. Infelizmente, em 2016 faleceu um jovem em Boa Vista, Roraima, de raiva humana.Informações no http://www.folhabv.com.br/noticia/Adolescente-que-contraiu-raiva-humana-morre-em-RR/16669
  • De: Luciano- 27/07/2016 15:38 Conseguiu sobreviver a doença mais mortal conhecida pelo homem, mas pelo jeito sobreviver ao descaso do poder público é bem mais difícil.
  • De: Ursula Elisabeth Metz- 27/07/2016 14:37 Pessoas humildes à própria sorte, enquanto milhões foram roubados por tantos, recentemente.
  • De: Julio Cesar Barbosa- 27/07/2016 14:27 É preciso aproveitar a visibilidade alcançada com a reprodução de sua bela matéria no UOL e desta linda história de superação deste garoto, para que se consiga, primeiro, uma cadeira de rodas moderna, depois um amparo de alguém ou do Poder Público para as sessões de fisioterapia, fonoaudiologia e o que mais for necessário para que recupere sus capacidades motoras. E depois, alguém de bom coração viabilizar seus estudos, oportunidade de trabalho e melhores condições de vida para ele e os seus, afinal passaram um bom pedaço de dor juntos. Mas valeu sua combatividade. Quero parabenizar o médico Vicente Vaz, que tem cara e jeito de gente boníssima e toda equipe do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, do Recife, além do gringo que até aqui se deslocou. Marciano e o Planeta agradecem. Deus ilumine a todos. P.S. Os programas de domingo poderiam prestar um serviço humanitário ao garoto. #ficaadica
  • De: Esperança- 27/07/2016 14:12 A mensagem que deixo é ver um pai com um filho nessa condição, que deveria sair do Hospital e o Estado lhe oferecer o conforto que todo ser humano necessita, o mais digno possível. Enquanto isso, roubam, roubam e roubam... roubam até os sonhos e esperanças. Mas... Deus a tudo assiste.
  • De: manoel benon- 27/07/2016 13:54 governo poderia ajudar muito esta pessoa., mas roubar e melhor.
  • De: Hamaryldho- 27/07/2016 13:45 Quer ter mobilidade mas mantém um pássaro aprisionado? Contraditório né meu filho? Não temos o direito de tirar a liberdade de nenhum ser vivo. Gosta de ser livre? Então LIBERTE!
  • De: nelson vieira- 27/07/2016 13:22 Os internautas precisam mobilizar e fazer uma campanha para oferecer melhores condições de vida a esse guerreiro.
  • De: MARCELO- 27/07/2016 13:08 Este merece ser ajudado,não pela pena,pois acredito que ele na sua humildade,não gostaria que sentisse dele,mas pela fé,força de vontade e de viver!Alguém poderia fazer uma vaquinha em nome do pai deste rapaz para ajudá-lo.Que Deus abençõe!
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