Atitude adotiva

Dizeres insuportáveis

Publicado em 10/06/2015, às 08h28 | Atualizado em 10/06/2015, às 08h48

Por Guilherme Lima Moura

Uma pessoa segura diante de si um quadro branco, onde escreveu algo que em algum momento ouviu de alguém a respeito de sua orientação homossexual / Foto: divulgação/ FB

Uma pessoa segura diante de si um quadro branco, onde escreveu algo que em algum momento ouviu de alguém a respeito de sua orientação homossexual Foto: divulgação/ FB

Vi-me agora alternando da indignação raivosa à emoção reflexiva, diante do belo e contundente projeto fotográfico Eu Te Ouvi Dizer*, que conheci navegando pelo eclético espaço de interação que chamamos de “redes sociais”.

A coletânea reúne oitenta fotos, cada um delas produzida basicamente assim: uma pessoa segurando diante de si um quadro branco, onde escreveu algo que em algum momento ouviu de alguém a respeito de sua orientação homossexual.

O resultado estético-ético são oitenta imagens incrivelmente diferentes e, ao mesmo tempo, terrivelmente iguais.

Imagens incrivelmente diferentes porque surgidas da unicidade que caracteriza cada pessoa. Cada indivíduo que é sem par em todo o Universo. Cada ser humano que é historicamente específico, biologicamente único, psicologicamente ímpar e, por tudo isso, - e acima de tudo isso - especial, extraordinário.

Imagens terrivelmente iguais porque reunidas ante o padrão de tratamento excludente, que nega as múltiplas possibilidades de se ser humano Guilherme Moura

Imagens terrivelmente iguais porque reunidas ante o padrão de tratamento excludente, que nega as múltiplas possibilidades de se ser humano. Que impõe, com base em algum tipo de estupidez, uma das mais terríveis formas de violência que pode existir: aquela que nega ao outro a possibilidade dele ser quem é.

Em cada uma das imagens salta aos olhos o tal enunciado, que no belo conjunto visual do qual faz parte, sobressai-se paradoxalmente pela profundidade de sua dureza. Ali temos de tudo. Embora o tudo seja, de certa forma, mais do mesmo. Novamente e ainda mais do mesmo.

Sendo eu hétero já ouvi a maioria. Se gay fosse o quão mais teria ouvido? Não sei. Mas o tanto de desagrado que elas me causam - sendo lá o que eu seja - já é para além do insuportável.

No entanto, o que é especialmente assustador, e mais ainda do que o próprio dito, é a autoria que os tais ditos denunciam.

Sim, porque os portadores daquelas sentenças não fazem meras descrições, não se resumem a dizer o que seus olhares incompreensíveis vêm, não estão simplesmente emitindo opiniões. Seus dizeres são veredictos impiedosos, verdadeiras maldições.

Mas quem são os algozes malsãos? São pais, mães, líderes religiosos, amigos, irmãos... São justamente aqueles cuja definição de papel relacional se fundamenta na ação de acolher e cuidar. Sim, porque ninguém é pai ou irmão em si.Ninguém é pastor sem rebanho ou amigo de si mesmo. Todos esses títulos surgem a partir do outro.

"Não vitimemos nossas crianças com a maldição do preconceito"

"Não vitimemos nossas crianças com a maldição do preconceito" Foto: divulgação/ FB

São os filhos que definem a existência dos pais, os irmãos e amigos que possibilitam outros irmãos e amigos, os sedentos de sentido e de paz que elegem seus pastores de todos os credos. E são estes. São justamente estes que projetam sua profunda ignorância sobre os que lhes procuram como espaço de alteridade, como via de legitimidade e reconhecimento de sua existência. Sim, caras e caros, são estes que lhes atiram a terrível pecha de renegado, doente, pecador.

Trago aqui uma das oitenta sentenças: “as crianças não precisam ser vítimas disso”. Só o contexto pragmático em que ela foi proferida é capaz de lhe dar o sentido agressivo que teve. Eu agora lhes digo, caras e caros, não vitimemos nossas crianças com impossibilidade delas serem quem são. Não vitimemos nossas crianças com a maldição do preconceito e da negação do outro. Ninguém precisa ser vítima de nossa estupidez.

* Conheça o Projeto Fotográfico Eu Te Ouvi Dizer, “desenvolvido para a 1ª Semana de Luta Contra a Homofobia de Blumenau, mostra como a homofobia verbal afeta a vida das pessoas”. Fotografia: Sabrina Marthendal, Assistência: João Paulo da Silveira.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

Atitude adotiva Guilherme Lima Moura é pai adotivo, integrante do Gead (Grupo de Estudos e Apoio à Adoção do Recife) e professor da UFPE. glmoura@gmail.com

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