A mulher e a lei

Violência doméstica: 54,71% dos BOs são dos crimes de ameaça e injúria

Publicado em 05/02/2018, às 06h18 | Atualizado em 05/02/2018, às 06h18

Por Gleide Ângelo

Segundo Gleide, para fazer uma política de prevenção é necessário analisar os números / Foto: Heudes Régis/JC Imagem

Segundo Gleide, para fazer uma política de prevenção é necessário analisar os números Foto: Heudes Régis/JC Imagem

No artigo de hoje falarei sobre os números dos boletins de ocorrência que são muito importantes para análise da violência doméstica e familiar no Estado de Pernambuco. Para fazer uma política de prevenção é necessário analisar os números, porque eles são o espelho da nossa realidade. É por meio dos números que podemos identificar quais os crimes com maior número de incidência e em quais locais é maior a violência doméstica e familiar. Essa análise está na estatística dos 33.188 (trinta e três mil, cento e oitenta e oito) boletins de ocorrência de violência doméstica e familiar registrados no Estado de Pernambuco no ano de 2017.

Sabemos que os crimes de violência doméstica e familiar têm uma subnotificação muito grande. Isso significa que muitas mulheres sofrem essa violência e não procuram a delegacia de polícia para denunciar. Por isso, em nenhum Estado do País existe o real número da violência domestica e familiar.

Mas, quando observamos que há 33.188 registros de BOs, podemos concluir que em Pernambuco, 33.188 mulheres deram uma basta na violência. Por isso, quanto maior o número de registros, maior o número de mulheres que romperam com o perverso ciclo da violência que as levam à morte. Aumento do número de registros de BOs não significa aumento do número da violência, mas significa aumento de mulheres buscando proteção na polícia.

Boletins de Ocorrência

Analisando os números dos registros dos BOs, temos um cenário diferente do que tínhamos há tempos atrás. No ano de 2017 tivemos 13.003 (treze mil e três) BOs registrados com o crime de ameaça e 5.157 (cinco mil, cento e cinquenta e sete) BOs de Injúria. Somando esses dois crimes temos o registro de 18.160 (dezoito mil, cento e sessenta) BOs de AMEAÇA e INJÚRIA, que perfazem 54,71 % dos boletins de ocorrência. Relativo ao crime de Lesão Corporal, tiveram 7.992 (sete mil, novecentos e noventa e dois) registros de BOs. Esse número de LESÃO CORPORAL é relativo a 24,08% do total de registros. Esses três crimes são responsáveis por 78,79% dos registros de BOs de todo o Estado.

O que mudou com os números

Quando dizemos que 54,71% dos BOs são dos crimes de AMEAÇA e INJÚRIA, podemos dizer que atualmente as mulheres não esperam serem espancadas para procurar as delegacias de polícia. Eles estão buscando a proteção da polícia na primeira ameaça e no primeiro xingamento. Anteriormente, os números dos registros de LESÃO CORPORAL eram muito altos em relação aos outros crimes. As vitimas só procuravam a polícia depois de serem agredidas fisicamente. Esse é um grande avanço no Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar. Pois demonstra que as mulheres estão mais esclarecidas acerca dos seus direitos e estão rompendo o ciclo da violência no primeiro grito, na primeira ameaça, no primeiro xingamento. A informação é o nosso maior aliado na mudança de cultura da sociedade.

A rede de proteção da mulher

O trabalho de prevenção é muito importante no Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar. Para a mulher denunciar, ela tem que acreditar que será efetivamente protegida pelo Estado. O fortalecimento da Rede de Enfrentamento é o responsável pela mudança de cenário do Estado de Pernambuco. Observamos isso com a criação das Delegacias Especializadas da Mulher, com as Varas Especialidades no Judiciário, Defensoria Pública, Ministério Público. A Secretaria da Mulher do Estado faz o trabalho de prevenção e coordena dois programas de proteção importantes, que são o Patrulha Maria da Penha executado pela Polícia Militar e o 190 Mulher executado pelo CIODS. Ainda existem as Casas Abrigos onde as mulheres que correm risco de vida são abrigadas até o deferimento das Medidas Protetivas. A SERES faz todo o monitoramento das tornozeleiras eletrônicas. A Secretaria da Saúde tem o trabalho em Hospitais para as Mulheres Vítimas de Violência Doméstica e Familiar. A Secretaria da Educação com a implantação do Programa Maria da Penha vai às Escolas.

Todos juntos formam essa grande Rede de Enfrentamento á Violência Doméstica. No Estado existem 184 municípios onde existe Secretaria da Mulher municipal ou Coordenadoria da Mulher para atender as mulheres daquela região. Com esse trabalho de divulgação dos Mecanismos da Lei Maria da Penha e da Rede de Enfrentamento, as mulheres que sofrem violência doméstica e familiar estão cada dia mais conscientes dos seus direitos e não tolerando mais sofrer violência. O resultado desse trabalho de Rede, são os números existentes em 2017, com maios incidência do crime de ameaça.

Amiga, temos 18.160 mulheres que procuraram a polícia quando foram ameaçadas e injuriadas (xingadas, esculhambadas). Elas acreditaram que a denúncia seria o caminho para a liberdade, para a chance de uma nova vida. Elas tiveram coragem e tomaram a atitude de romper o ciclo da violência no inicio. Temos 7.992 que denunciaram depois de serem espancadas. Mas, tiveram coragem e decidiram dar um basta na violência. E você que sofre esse tipo de violência? Vai esperar a violência progredir até quando? Já falei diversas vezes sofre o ciclo da violência que é uma crescente e pode chegar ao feminicidio.

Você está vendo os número da violência. São inúmeras mulheres que sofrem. Mas temos 33.188 mulheres que finalmente deram um basta. Veja essas mulheres como exemplo de que existe felicidade fora de uma relação abusiva. Quando a mulher sai de uma relação abusiva, ela está dando oportunidade de encontrar relacionamentos saudáveis e construtivos. Não espera para amanhã. Tome uma atitude hoje, procure uma delegacia de polícia e denuncie o agressor. Requeira as Medidas protetivas e os Programas de Proteção (Patrulha Maria da Penha e 190 Mulher). Você não pode continuar sofrendo violência nas mãos de uma agressor. Tome sua vida em suas mãos e decida ser feliz. Não tenha medo de denunciar. Tenha medo de continuar nessa relação abusiva. Tudo depende de você, dê o primeiro passo e verá como você será feliz!

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA!

EM QUAIS ÓRGÃOS BUSCAR AJUDA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER:
» Centro de Referência Clarice Lispector – (81) 3355.3008/ 3009/ 3010
» Centro de Referência da Mulher Maristela Just - (81) 3468-2485
» Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon - 0800.281.2008
» Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à Mulher – (81) 3524.9107
» Central de atendimento Cidadã pernambucana 0800.281.8187
» Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180
» Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo) - 190 MULHER


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

A mulher e a lei Gleide Ângelo é delegada especial, gestora do Departamento da Mulher. gleideangelo@gmail.com

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  • De: Ricardo Freire- 05/02/2018 11:05 Engraçado que a lei só é para os homens, pois sou agredido fisicamente, verbalmente e humilhado, todos os diais e indo ate a delegacia sou alvo de lorotas. E essa lei tem que ser para os 2 homens e mulheres. Vergonha!!!
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