A mulher e a lei

Feminicídio, uma morte anunciada

Publicado em 28/08/2017, às 06h42 | Atualizado em 28/08/2017, às 19h58

Por Gleide Ângelo

Na coluna de hoje, a delegada Gleide Ângelo conta a história de uma mulher que apanhou do marido durante 26 anos  / Foto: Heudes Régis/JC Imagem

Na coluna de hoje, a delegada Gleide Ângelo conta a história de uma mulher que apanhou do marido durante 26 anos Foto: Heudes Régis/JC Imagem

No artigo de hoje falarei sobre um crime que é anunciado e que pode ser evitado, o feminicídio. Na maioria das mortes de mulheres motivadas por feminicídio, a vítima tem um extenso histórico de violência. Elas sofrem violência doméstica por diversos anos, caladas e isoladas, tornando-se presas fáceis para homens agressores, violentos e dominadores.

Observamos isso analisando o histórico das mulheres que foram vítimas de feminicídio no Estado de Pernambuco. De todas a vítimas existentes no ano de 2017, apenas uma havia registrado um boletim de ocorrência. As outras vítimas que sofreram violência doméstica nunca denunciaram o agressor. Quando uma mulher é morta pela condição de gênero, pelo fato de ser mulher, geralmente não é na primeira agressão que ela é morta. As agressões vão se intensificando, terminando com a morte, o feminicídio.

Dos 16.357 boletins de ocorrências de violência doméstica registrados no estado de Pernambuco entre os meses de janeiro a julho/17, apenas uma mulher foi vitima de feminicídio

Por isso, o Departamento de Policia da Mulher (DPMUL), em parceria com a Secretaria da Mulher dos municípios, está com uma caravana indo a diversos municípios para conscientizar as mulheres sobre os riscos de morte que as mulheres que sofrem violência doméstica correm. Nas palestras, observo que há muitas mulheres que são vítimas de violência doméstica, que ficam com os olhos lacrimejados ao escutarem o que falo. Na realidade, elas se identificam com o que estou falando porque estão passando pelo mesmo tipo de problema. A finalidade dessas palestras é de informar as mulheres sobre a Rede de Enfrentamento que existe no combate à violência e encorajá-las a tomar a atitude de denunciar o agressor.

DELEGADA, APANHEI POR 26 ANOS, MAS DEIXEI ELE

Essa foi uma frase que me chamou a atenção em uma dessas palestras. Quando termina a palestra, nós policiais, vamos até o ônibus da Polícia Civil para conversar com as mulheres que solicitam. Quando uma mulher chegou perto, ela me disse: "Delegada, apanhei por 26 anos, mas deixei ele". Pedi que ela esperasse porque queria conversar para saber o que ocorreu para que ela tivesse forças para tomar uma atitude tão corajosa, porém difícil.

A mulher, que chamarei pelo nome de Prazeres (fictício) estava tão orgulhosa de me dizer aquela frase, que fiquei emocionada por não encontrar uma mulher destruída e humilhada pela separação. Na verdade, ela estava muito feliz por servir de exemplo para outras mulheres. Ela começou dizendo: "Toda vez que vejo uma mulher chorando por causa de um homem eu digo que deixei o meu depois de 26 anos."

E Prazeres começou a história, que é igual a de tantas mulheres, porém com o final diferente, "Casei cedo, tive 4 filhos. Meu marido bebia muito, deixava meus filhos com fome e gastava todo o dinheiro no bar. Toda vez que reclamava, levava uma surra. E foi assim por muito anos. Ele estava tão acostumado a me bater, que mesmo quando eu não reclamava, ele dizia que ia me bater porque eu estava muito estranha, muito calada, e que estava escondendo alguma coisa. Então, eu apanhava de todo jeito, falando ou calada."

Vivendo a violência doméstica, Prazeres disse que a cada dia o espancamento aumentava, chegando ao ponto de Antônio (fictício) quebrar o braço dela com uma surra. Perguntei se alguma vez ela pensou em procurar uma delegacia de polícia para denunciar, e Prazeres prontamente respondeu: Denunciar? Deus me livre. Só se fosse para ele me matar quando eu voltasse para casa". Esse é o pensamento que muitas mulheres têm, que se denunciarem, morre.

Mas, como já falei em outros artigos, é exatamente o contrário. Mulher que denuncia não morre, está protegida. Dos 16.357 boletins de ocorrências de violência doméstica registrados no estado de Pernambuco entre os meses de janeiro a julho/17, apenas uma mulher foi vitima de feminicídio. Isso significa que quem procura a polícia e registra um boletim de ocorrência e requer medidas protetivas de urgência, não morre.



Porém, sabemos que a Lei Maria da Penha só tem 11 anos, e a violência que Prazeres vinha sofrendo era muito anterior à lei. Prazeres foi narrando todo o histórico de violência, quando perguntei: O que aconteceu para você decidir dar um basta em uma violência de 26 anos? E ela contou como conseguiu se libertar. "Na verdade, eu já estava acostumada, achava que aquele era meu destino. Foi quando a filha da minha vizinha, não aguentando me ver sofrendo tanto, me chamou para conversar. Ela tinha apenas 24 anos, tinha se formado em psicologia e conversou comigo, dizendo que eu precisava me tratar, que estava doente emocionalmente".

No início, Prazeres disse que não entendeu, mas com o passar do tempo e com as conversas da vizinha psicóloga ela foi começando a enxergar que ela não precisava de um agressor para viver e que existia uma vida com dignidade
esperando por ela. A vizinha levou Prazeres até um Centro de Referência da Mulher e ela começou um tratamento com os profissionais (psicólogo, assistente social). Prazeres se recordou:  "É impressionante como eu comecei a enxergar a vida com outros olhos. Quando Antônio vinha bater em mim, já não permitia, e muitas vezes avancei em cima dele também. Surgiu dentro de mim, forças que eu não sabia que tinha."

E Prazeres foi mais além. "Meus filhos já estavam adultos e morava sozinha com Antônio, então falei com minhas amigas pedindo que me ajudassem a arrumar faxina para ganhar dinheiro. Consegui o trabalho e quando recebi o primeiro dinheiro da faxina, peguei minhas coisas e saí de casa. Aluguei um quarto e fui morar sozinha. Antônio não aceitou, bebeu e foi atrás de mim. Invadiu o quarto que eu estava morando e me espancou. Comecei a gritar por socorro, pedindo que alguém chamasse a polícia. Os vizinhos chamaram a polícia e fomos todos para a delegacia. Antônio foi preso e pedi as medidas protetivas. Continuei trabalhando e vivendo a liberdade que nunca tive. É por isso que onde chego digo que depois de 26 anos apanhando, hoje estou feliz, conquistei a liberdade. Não consigo ver uma mulher sofrendo violência doméstica. Sempre que alguém me diz que sofre violência, faço com ela o que a filha da minha vizinha fez comigo. Converso e levo ela até a Secretaria da Mulher para ela conversar com as pessoas que sabem explicar a Lei Maria da Penha. A partir de agora, não vou deixar nenhuma mulher passar pelo o que passei. Não precisa sofrer 26 anos para decidir ser feliz".


Fiquei emocionada e impressionada com a força de Prazeres, que hoje  está trabalhando fazendo faxinas e no enfrentamento à violência contra a mulher. Toda vez que ela está trabalhando e vê que aquela mulher sofre violência, ela conversa com a mulher e a leva a Secretaria da Mulher ou a um Centro de Referência. Ela já está separada de Antônio há quatro anos, que foi solto com seis meses e nunca mais a procurou, com medo de ser preso novamente.

Amigas, quando digo que o feminicídio é uma morte anunciada e que pode ser evitada, isso é uma realidade. A violência doméstica/familiar é um ciclo que vai crescendo, e a cada dia a intensidade da violência aumenta. Quando a mulher denuncia e rompe com esse ciclo da violência, ela não permite que evolua. Os estágios da violência são crescentes, começa com a violência psicológica (ameaças, gritos, humilhações), violência moral (injuria, difamação), e evolui para a lesão corporal. Com a intensidade da lesão corporal, agredindo cada vez mais, a mulher é morta pelo agressor, que acha que é dono da vida e da morte dela. 

Por isso, não permita que a violência evolua, faça como Prazeres fez, dê uma basta na violência e rompa com esse ciclo crescente da violência doméstica. E se você não sofre violência doméstica, mas conhece mulheres que sofrem, ajude. Fortaleça a mulher para que ela supere a dor e denuncie o agressor. Vivemos em sociedade que julga demais e ajuda de menos. Faça a diferença, ajude.

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA!

EM QUAIS ÓRGÃOS BUSCAR AJUDA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER:

» Centro de Referência Clarice Lispector – (81) 3355.3008/ 3009/ 3010
» Centro de Referência da Mulher Maristela Just - (81) 3468-2485
» Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon - 0800.281.2008
» Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à
Mulher – (81) 3524.9107
» Central de atendimento Cidadã pernambucana 0800.281.8187
» Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180
» Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo) - 190 MULHER


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

PALAVRAS-CHAVE: notícias a mulher e a lei

A mulher e a lei Gleide Ângelo é delegada especial, gestora do Departamento da Mulher. gleideangelo@gmail.com

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  • De: Ricardo Freire- 29/08/2017 12:31 É triste ver como essa lei só ver o lado da mulher muitas mulheres espancam, agridem moralmente fisicamente, matam....e essa lei não da direito do homem se defender e é sempre injustiçado.
  • De: Felipe DIAS- 28/08/2017 13:53 São parciais ou superficiais. Nenhuma mulher agride primeiro o homem, né?
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