A mulher e a lei

''Sou mulher e negra: sofro dois tipos de violência''

Publicado em 14/08/2017, às 07h00 | Atualizado em 14/08/2017, às 22h05

Por Gleide Ângelo

A delegada Gleide Ângelo fala sobre relatos sofridos por mulheres negras / Foto: Heudes Régis / JC Imagem

A delegada Gleide Ângelo fala sobre relatos sofridos por mulheres negras Foto: Heudes Régis / JC Imagem

No artigo de hoje falarei sobre mulheres que sofrem violência por terem nascido mulheres e negras. Elas são vítimas de dois tipos de violência em uma sociedade machista, racista e preconceituosa. Quando analisamos os dados estatísticos dos registros de boletins de ocorrências em Pernambuco, temos a real dimensão do tamanho do preconceito, onde a maior parte das mulheres
vítimas de violência doméstica e familiar são negras.

DADOS ESTATÍSTICOS

No período de Janeiro a Julho/2017, do total de número de registro de boletins de ocorrência de violência doméstica, 65,93% são negras. Analisando o número de homicídios de mulheres no mesmo período (Janeiro a Junho/2017), 82,40% das mortes foram de mulheres negras. Com esses números, observamos que as mulheres negras sofrem mais preconceito e estão mais vulneráveis à serem vítimas de violência doméstica. Diariamente, recebo muitas mensagens de mulheres vítimas de violência doméstica. Entre muitas mensagens, uma me chamou a atenção, a de uma mulher negra, que na noite de Natal sofreu todos os tipos de humilhações por ter se relacionado com um homem de cor branca. Pedi que Elaine (nome fictício) narrasse sua história para que servisse de exemplo para mulheres que sofrem o mesmo tipo de preconceito. Ela concordou em falar.

O NATAL DE HUMILHAÇÕES SOFRIDAS POR ELAINE

Quando Elaine chegou, estava muito abatida, com a cabeça baixa, sem o brilho do olhar. Ela começou a chorar e foi colocando para fora toda a dor que lhe sufocava. Quando ela parou de chorar, perguntei se ela estava se sentindo bem, e ela respondeu, "nunca fui tão humilhada, eles me fizeram acreditar que eu não servia para nada". Elaine se acalmou e começou a narrar a sua dor, "conheci Lauro (nome fictício) em uma festa. Começamos a conversar e me interessei por ele. Lauro demonstrou ser um homem inteligente, sensível, educado, além de ser muito bonito. Começamos a nos conhecer melhor e quando saíamos, notava que as pessoas nos olhavam com um certo olhar de reprovação. Talvez fosse pelo fato de Lauro ter a cor banca, olhos azuis, ter 1.90cm de altura e chamar a atenção. Eu sou negra, e sentia o preconceito das pessoas em cada olhar. Sempre conversava sobre isso com Lauro, mas ele sempre me deixou segura de que o que ele sentia por mim era muito forte e que ele não se sentia
incomodado com o preconceito das pessoas".

Com o passar do tempo, o relacionamento de Elaine e Lauro foi ficando mais sólido, e ela estava muito feliz. "quando Lauro chegava me sentia a mulher mais amada e feliz do mundo. Minha família era encantada por ele, que me tratava como uma princesa. Apesar de muito feliz, tinha algo que me incomodava, o fato de não conhecer os familiares de Lauro. Comecei a cobrar
que ele me levasse à casa dos pais dele. Quando cobrava, ele sempre me dava uma desculpa, que os pais estavam doente, viajando. Comecei a observar que tinha algo de errado com os familiares dele. Por isso resolvi colocar Lauro contra a parede e disse que passaria a noite de Natal com os pais dele. Notei que Lauro ficou imóvel quando falei isso, mas estava decidida a saber o que havia de tão misterioso com os familiares dele".

Finalmente chegou a noite de Natal, o grande dia de Elaine conhecer os pais de Lauro. "quando ele foi me buscar, ainda tentou me fazer desistir, mas eu estava decidida e disse que iria de qualquer jeito. Quando entramos na casa de Lauro, havia diversas pessoas, uma casa luxuosa com uma mesa farta, tudo de muito bom gosto. Mas, quando as pessoas olharam para mim, ficaram
paralisadas. Perguntei a Lauro o que estava acontecendo, porque estavam olhando para mim daquele jeito, e ele me respondeu: é porque eu não disse a eles que você era negra".

Naquele momento, Elaine disse que perdeu o chão, estava se sentindo um nada. As pessoas olhavam para ela com olhar de espanto, sem entender o porque de Lauro estar com uma mulher negra. E ela continuou, "para me recompor, pedi para ir ao banheiro. Quando entrei no banheiro, havia uma janela que dava para escutar a conversa das pessoas. E para minha decepção
ouvi a mãe de Lauro conversando com ele e perguntando o que estava acontecendo. Porque ele estava fazendo aquilo com a família, levando uma mulher horrorosa, desqualificada, que mais parece uma macaca para o Natal da família. Ela ainda disse, "leve essa mulher embora daqui, porque ela não senta à mesa conosco, e não tem jantar de Natal".



Quando relembrou, Elaine começou a chorar, soluçar e sentir novamente toda a dor da violência sofrida. Perguntei o que ela tinha feito após ouvir tudo aquilo, e ela respondeu, "chorei muito no banheiro, lavei o rosto, abri a porta e sai correndo. Lauro foi atrás de mim e disse: 'entendeu porque eu não queria lhe trazer?'". Elaine pegou um táxi e saiu daquele local, voltando para sua casa. "Cheguei em casa chorando muito, humilhada. Falei tudo para minha mãe e meus irmãos que ficaram indignados e queriam ir à casa de Lauro tomar satisfação. Mas eu não deixei, disse a minha mãe que seríamos mais humilhados ainda, que tudo o que queria era esquecer que Lauro e a família dele existiam".

Para encerrar a conversa, perguntei porque Elaine não foi a uma delegacia denunciar o crime que ela sofreu, e prontamente ela me respondeu, "eu não queria mais me lembrar do que ocorreu naquela noite. Um processo só iria fazer com que eu sofresse mais, e todo dia me lembraria que existem pessoas racistas que julgam os outros pela cor da pele. Na verdade, tudo o que eu
queria era esquecer tudo o que aconteceu naquela noite de Natal".

Dias depois, Lauro procurou Elaine para se desculpar e se justificar, mas a dor que Elaine sentia era tão forte, que tudo o que ela disse a Lauro foi que ele nunca mais aparecesse na frente dela, que a família dele não merecia ter uma pessoa decente como ela. E que ela jamais faria parte de uma família racista, preconceituosa e covarde, onde julga, humilha e despreza as pessoas
simplesmente pela cor da pele. E ela encerrou dizendo, "Lauro, eu sou maior do que tudo isso, e você não merece uma pessoa como eu, não me procure nunca mais".

Amigas, ainda conseguimos ficar indignadas com a postura racista e preconceituosa de muitas famílias que ditam regras e padrões para que as pessoas sejam aceitas. Muitas mulheres sofrem esse tipo de preconceito dos familiares do companheiro. No caso de Lauro, ele pertencia a uma família retrógrada, preconceituosa e racista, que não mediu palavras para humilhar e diminuir Elaine. Esse tipo de crime é considerado crime de ódio onde as pessoas são odiadas apenas pela cor da pele. Os familiares de Lauro não conheciam Elaine, mas a julgaram pela cor da pele.

Por isso, se você está passando por esse mesmo preconceito, não aceite. Vivemos em uma sociedade onde devemos lutar pela igualdade de direitos. Onde não se poder haver distinção com relação a gênero, raça, cor, etnia, religião. Todos devem ser respeitados nas suas diferenças. É por isso que existem leis para punir quem comete esses tipos de crime. A mulher sofre dois
preconceitos, a de ser mulher e a de ser negra. Por isso, se você sofrer alguma discriminação por ser negra, denuncie. Procure uma delegacia de polícia e denuncie o agressor. Existem leis que protegem a violência contra a mulher e leis que protegem contra o racismo. Não fique calada, a denúncia é a melhor forma de transformar uma sociedade machista, racista e preconceituosa. Diga não ao preconceito!.

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA!

EM QUAIS ÓRGÃOS BUSCAR AJUDA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER:

- Centro de Referência Clarice Lispector – (81) 3355.3008/ 3009/ 3010
- Centro de Referência da Mulher Maristela Just - (81) 3468-2485
- Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon - 0800.281.2008
- Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à
Mulher – (81) 3524.9107
- Central de atendimento Cidadã pernambucana 0800.281.8187
- Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180
- Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo) - 190 MULHER


*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

PALAVRAS-CHAVE: notícias a mulher e a lei

A mulher e a lei Gleide Ângelo é delegada especial, gestora do Departamento da Mulher. gleideangelo@gmail.com

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