A mulher e a lei

Como a submissão da mulher leva à violência doméstica

Publicado em 20/02/2017, às 07h02 | Atualizado em 20/02/2017, às 07h02

Por Gleide Ângelo

Em sua coluna A Mulher e a Lei, a delegada Gleide Ângelo mostra como a mulher pode ficar cega e acabar disfarçando a violência que sofre / Foto: Heudes Régis/JC Imagem

Em sua coluna A Mulher e a Lei, a delegada Gleide Ângelo mostra como a mulher pode ficar cega e acabar disfarçando a violência que sofre Foto: Heudes Régis/JC Imagem

Caros leitores,

No artigo desta segunda (20), falo sobre um tema muito importante: o processo de submissão da mulher. É por causa da submissão que muitas mulheres se permitem sofrer diversos tipos de violência doméstica e não conseguem ir embora. A escritora francesa Marie-France Hirigoyen é psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta familiar e atende casais há muitos anos. Em seu livro "A Violência no Casal", ela aborda com bastante propriedade esse processo de subalternidade.

A implantação do processo de submissão

Em seu livro, Marie-France Hirigoyen escreve que "o processo de submissão se desenvolve em dois tempos: tem início com a sedução; depois, se a mulher resiste, o homem passa a usar procedimentos violentos cada vez mais manifestos".

1ª etapa - A fase da sedução dá a ilusão de uma troca afetiva, ambos se deixam prender pelo que parece ser um amor idílico. As mulheres falam muitas vezes em um amor ideal, um príncipe encantado. Esse amor intenso que os anglo-saxões denominam 'bombardeio amoroso' vai ser reencontrado por ocasião na fase da lua-de-mel da violência cíclica. Tal sedução visa aos instintos protetores da mulher: o homem se apresenta como vítima de uma infância ou de um divórcio infeliz. Não se trata de uma sedução amorosa, recíproca, e sim de uma sedução narcísica, destinada a fascinar o outro e, simultaneamente, paralisá-lo.

Essa fase de sedução é, ao mesmo tempo, uma fase de preparação psicológica à submissão, como disse o psicanalista Racamier, que fala em "descerebração". A mulher é desestabilizada e perde gradativamente a confiança em si. Mesmo que sua liberdade esteja sofrendo uma erosão gradativa, ela continua acreditando que é livre e que o homem não lhe está impondo nada. No entanto, através de microviolências ou intimidações, ela está sendo progressivamente privada de todo arbítrio e de qualquer olhar crítico sobre a própria situação. Está no vazio e na incerteza, constrangida a conformar-se, impedida de discutir ou de resistir e acaba considerando como normal a maneira como está sendo tratada.

A relação de submissão bloqueia a mulher, impedindo-a de evoluir e de compreender. O homem violento neutraliza o desejo de sua companheira. Reduz ou anula sua alteridade para transformá-la em objeto. Ele dirige o ataque contra seu pensamento, induz à dúvida sobre o que ela diz ou sente e, ao mesmo tempo, faz com que os que estão próximos avalizem sua inferiorização.

A submissão impede a mulher de se revoltar contra o abuso que sofre, torna-a obediente, faz com que ela proteja seu agressor e o absolva de toda e qualquer violência. Com esse processo, o homem não busca, de início, destruir a companheira, mas apenas submetê-la gradativamente e mantê-la à sua disposição. O importante é dominá-la, a fim de que ela não seja mais que um objeto e que fique em seu lugar de objeto. A destruição só virá depois, com estratégias doces como a persuasão, a sedução e a manipulação, além das mais diretas de dominação como a coação.

2ª etapa - Nesta fase, capta-se a atenção e a confiança da pessoa, a fim de privá-la de seu livre arbítrio, sem que ela tenha consciência disso. É a lavagem cerebral. Trata-se de fisgá-la, como se fisga um peixe, e de tirar-lhe toda capacidade de resistência. Isso se traduz em olhares ou atitudes que anunciam a passagem a atos violentos, que serão, por sua vez, seguidos de mensagens tranquilizadoras para banalizar o que acabou de se feito.

Uma fase de programação permite manter essa influência nefasta sobre o outro, mesmo quando não se está presente. A pessoa subjugada obedece à injunção, sem integrar totalmente a informação. Ela está, de certa forma, teleguiada por um Big Brother. Trata-se de condicioná-la para manter o domínio sobre ela em todo qualquer instante.

A pessoa é assim, "programada". Depois disso, basta ativar nela o comportamento que se deseja para que reaja como se pretende. É dessa forma que, reativando na parceira imagens de isolamento, de solidão, nela se reavivam medos ancestrais, conclui a autora.

Neste capítulo, especificamente, a autora descreve exatamente o que ocorre nos relacionamentos destrutivos, onde as mulheres são subjugadas, humilhadas, desprezadas e violentadas. Essas são as características das relações onde o agressor é dominador. De uma forma lenta e silenciosa, ele vai destruindo a autoestima da mulher, fazendo com que ela acredite que não tem valor e que depende dele. É essa dependência que faz com que muitas mulheres continuem em relacionamentos doentios.

A submissão que eles impõem às mulheres a transformam em objetos, onde elas têm que estar à disposição dos seus desejos. Quando a mulher se insurge contra o dominador e ele não pode mais dominá-la pelo medo, começam as agressões físicas. A violência progride a cada vez que a mulher 'desobedece' o agressor e, muitas vezes, chega à morte.

Por isso, amiga, não permita que homem nenhum te torne submissa. Você é livre para escolher o caminho que deseja seguir. Se algum agressor quiser te dominar pelo medo ou através de ameaças e agressões, você só tem um caminho para conseguir a sua liberdade: denunciar. Com essa atitude, o agressor verá que você não está mais disposta a se submeter aos "comandos" dele. Não coloque a sua vida nas mãos de ninguém. A sua liberdade é uma conquista que você deve defender todos os dias. Dê um basta na violência e busque por justiça.

Você não é submissa, nem objeto nas mãos de ninguém. A sua liberdade não tem preço, então aprenda a defendê-la. Afinal, você não é prisioneira e nem escrava.

Você não está sozinha - Veja em que órgãos buscar ajuda:

Centro de Referência Clarice Lispector – (81) 3355.3008 // 3009 // 3010
Centro de Referência da Mulher Maristela Just - (81) 3468.2485
Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon - 0800.281.2008
Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à Mulher – (81) 3524.9107
Central de atendimento Cidadã pernambucana - 0800.281.8187
Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180
Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo)

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

A mulher e a lei Gleide Ângelo é delegada especial, lotada na Delegacia de Olinda. gleideangelo@gmail.com

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  • De: Shirley Almeida- 20/02/2017 11:20 Gleide, muito bom dia. Você está de parabéns pelo excelente texto. gosto muito da sua linguagem direta e objetiva. Concordo plenamente. quem sabe como me fazer feliz sou EU. não posso colocar isso na mão de ninguém. Que Deus te ilumine hoje e sempre. Um forte abraço; Shirley Almeida
  • De: Lídia Rosa- 20/02/2017 11:06 Faltou falar: O QUE GERA VIOLÊNCIA MUiTAS VEZES PRIMEIRO É O COMPORTAMENTO INVASIVO INCONTINENTI, AMEAÇADOR E/OU AGRESSIVO DA MULHER QUE TENTA MANDAR NOS OUTROS, ainda mais as mulheres de hoje, mal formadas e sem noção que provocam reações adversas. Não adianta bater nessa tecla feminista equivocada. Eliminem as CAUSAS e as CONSEQUÊNCIAS cessarão ... senão NÃO se relacionem.
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