A mulher e a lei

De menina de rua à empresária de moda

Publicado em 13/02/2017, às 07h14

Por Gleide Ângelo

Delegada conta uma história de superação  / Foto: Heudes Régis/JC Imagem

Delegada conta uma história de superação Foto: Heudes Régis/JC Imagem

Caros leitores, 

No artigo de hoje, falarei sobre uma história de superação, onde veremos que é possível viver todo o tipo de violência e dar a volta por cima, deixando toda a dor e ressentimento para trás. É muito importante para as mulheres terem consciência de que tudo pode ser transformado, inclusive a dor. A forma de lidar com o problema é o ponto de partida para a mudança e transformação, porém tem que ter atitude.

A infância nas ruas

Tomei conhecimento da história de Solange (nome fictício) e fui procurá-la para que me contasse sua história de vida, que servirá de exemplo para muitas mulheres que acham que a vida acabou e não tem mais solução. Solange é a prova de que tudo pode ser transformado quando se tem atitude e coragem. Quando Solange chegou, vi uma mulher elegante, educada e muito segura. Fiquei curiosa para saber como uma pessoa que foi abandonada nas ruas conseguiu vencer na vida e chegar tão longe.

Com muito orgulho, ela começou contando sua trajetória de vitória, "Minha mãe morava nas ruas, era usuária de drogas e nasci na rua. Quando fiz dois anos minha mãe teve uma doença causada pelas drogas e morreu. As amigas da minha mãe, que também moravam na rua não quiseram ficar comigo, pois criança dava trabalho e começaram a me oferecer para qualquer pessoa que passava na rua. Uma senhora muito humilde ia passando no local e viu aquela cena. Ela perguntou porque estavam querendo dar a criança, e elas disseram que minha mãe tinha morrido e elas não queriam ficar comigo. A senhora, que chamarei pelo nome de Prazeres, me pegou nos braços e me levou para a casa dela." 

Enquanto conversávamos, chegou uma senhora e abraçou Solange. Ela disse, "essa é a minha mãe, devo tudo a ela". Dona Prazeres era uma senhora com cerca de 70 anos, muito simples e envergonhada. Ela ficou atenta a conversa, e Solange continuou, "essa mulher que você está vendo aqui é minha verdadeira mãe. Quando cheguei na casa dela com dois anos, ela era muito pobre, mas mesmo assim  cuidou de mim. Trabalhava como costureira para comprar meu leite. Cresci vendo minha mãe costurando. Ela me colocou em uma escola e comecei a estudar. Lembro que quando tinha sete anos, não gostava de fazer as tarefas de casa, gostava de ver minha mãe costurando e fazendo roupas." 



Dona Prazeres interferiu, "mas eu dizia que ela tinha que estudar, não queria que passasse a vida em cima de uma máquina, como eu". Mas, o que a vida reservava para Solange não era um trabalho de costureira, era algo muito maior. Solange continua, "Fui crescendo e começando a observar que minha mãe só costurava o que as clientes pediam, ela não dava ideias sobre as roupas, e isso me incomodava. Então, na hora que a cliente chegava pedindo para fazer uma roupa igual a que estava na revista, eu começava a dar sugestões sobre as roupas, e as clientes gostavam das minhas opiniões". O tempo foi passando e Solange terminou o 2º grau. Ela estava com 17 anos e não sabia para que curso iria prestar vestibular, "nada me interessava, eu só gostava de roupa, de moda. Mas, na época não existia esses cursos de moda que existem hoje, só cursos tradicionais.  Por isso tomei uma decisão, disse a minha mãe que não queria fazer curso superior, que iria ajudá-la com a confecção das roupas, pois era disso que eu gostava". 

Nesse momento, Dona Prazeres falou, "não gostei quando ela me disso isso, pois terminaria com eu, em cima de uma máquina". Mas, como veremos, os planos e ambições de Solange eram bem maiores do que apenas costurar. 

A grande conquista

No início, Solange foi aprendendo a costurar com a mãe, e começou a criar os modelos. "Quando uma cliente chegava, eu perguntava se poderia sugerir algum modelo. Comecei a desenhar os modelos e as clientes adoravam. Com as novas ideias o número de clientes começou a aumentar, e Solange e Dona Prazeres não tinham como atender a todos os pedidos. " Foi nesse momento que tive a ideia de alugar um local maior e contratar uma costureira para trabalhar conosco. Minha mãe não gostou muito da ideia, mas aceitou". Sorrindo, Dona Prazeres comenta, "eu fiquei assustada porque tinha que comprar novas máquinas e contratar costureiras. Era um custo muito alto e fiquei preocupada". Mas, Solange que não temia desafios alugou um galpão, comprou máquinas financiadas e contratou inicialmente duas costureiras. 

O sucesso foi tão grande  que Solange começou a ser procurada por clientes de classe média alta para desenhar e confeccionar roupas para casamentos e formaturas. E assim, o nome de Solange já estava no mundo da moda. Atualmente, Solange possui uma grife com filiais em 10 capitais do Brasil e uma em Nova Iorque. Perguntei onde Dona Prazeres morava, e prontamente Solange respondeu, "ela mora comigo onde eu estiver. Para onde vou, ela vai comigo."  Solange é casada com um empresário da construção civil, tem dois filhos adolescentes, mas o amor que ela tem pela mãe é algo que emociona. "Tudo o que sou na vida devo a essa mulher, que me tirou das ruas, me educou, e me ensinou tudo o que sei. A minha força vem de dentro dessa mulher, que sempre viveu sozinha e nunca reclamou da vida. Ela me ensinou a lutar pelos meus sonhos. Se toda mulher tivesse uma mãe como a minha, nenhuma permitiria ser humilhada e violentada. Elas se abraçaram e choramos juntas." 

O importante de ouvir uma história como essa, é para você ver que é possível transformar uma história de dor e sofrimento. Uma menina que foi abandonada nas ruas e criada por uma mulher simples e humilde. Ela poderia se revoltar pela história de vida dela. Mas ela foi mais inteligente e determinada, preferiu aproveitar a oportunidade que a vida lhe deu de ter uma mãe que a  amasse, e traçou planos e objetivos. Ela sonhou junto com a mãe e cresceram juntas. O mais emocionante de tudo isso é a gratidão e o amor que Solange tem por Dona Prazeres. 

Amiga, tenha gratidão por tudo o que você conquistou em sua vida. Se hoje você está sofrendo violência doméstica é porque enxergou errado o seu companheiro. Mas, agora que você está vendo que ele é um agressor, não fique reclamando e achando que não tem jeito, que é o fim. Tem jeito sim. Faça como Solange, esqueça o que passou, não olhe para trás. Tenha sonhos, trace planos e objetivos para alcançar seus sonhos. Liberte-se desse agressor. Só você pode mudar a sua história. Você quer, pode e conseguirá vencer. Se estiver sofrendo qualquer tipo de violência doméstica, denuncie. Esse é apenas o primeiro passo para a estrada de sonhos e realizações que você conquistará. Siga em frente. 

Você não está sozinha

EM QUAIS ÓRGÃOS BUSCAR AJUDA

» Centro de Referência Clarice Lispector – (81) 3355.3008/ 3009/ 3010

» Centro de Referência da Mulher Maristela Just - (81) 3468-2485

» Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon - 0800.281.2008

» Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à Mulher – (81) 3524.9107

» Central de atendimento Cidadã pernambucana 0800.281.8187

» Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180

» Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo)


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PALAVRAS-CHAVE: notícias a mulher e a lei

A mulher e a lei Gleide Ângelo é delegada especial, lotada na Delegacia de Olinda. gleideangelo@gmail.com

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