A mulher e a lei

Cheguei no limite. Passei de vítima a criminosa

Publicado em 06/02/2017, às 07h08 | Atualizado em 06/02/2017, às 07h08

Por Gleide Ângelo

Gleide Ângelo relata a triste história de uma mulher que perdeu o controle  / Foto: Heides Régis

Gleide Ângelo relata a triste história de uma mulher que perdeu o controle Foto: Heides Régis

Caros leitores, 

No artigo de hoje, falarei sobre a história de uma mulher que sofreu todos os tipos de violências domésticas por quinze anos e se tornou uma criminosa. Ela disse que já foi humilhada, espancada, violentada, chegou perto da morte, mas nunca pensou em deixar o companheiro ou denunciá-lo. 

A história de Vera (nome fictício) é aterrorizante, marcada por muita dor e sofrimento com espancamentos quase diários. Marquei um encontro com Vera para que ela me contasse sua história de vida, pois tenho certeza que ajudará muitas mulheres que passam pelo mesmo problema. Quando Vera chegou, observei uma mulher com o rosto sofrido e sem muita esperança na vida. Ela estava com a filha de 12 anos e começamos a conversar. No início ela estava envergonhada e as lágrimas começaram a cair no rosto. Mas, fomos conversando e ela foi se acalmando. 

A trágica história de Vera 

Vera começou a narrativa: "Casei com 17 anos e vim morar em Pernambuco, longe da minha família. Meu marido José (fictício) sempre foi muito ciumento e bebia muito. Com um ano de casada, eu já não podia sair de casa e conversar com ninguém. Ele ia trabalhar e levava as chaves, me deixando trancada em casa. Quando minha mãe telefonava eu dizia que estava tudo bem, que estava feliz, pois tinha vergonha da minha vida e não queria preocupar a minha mãe."

A história de Vera é exatamente igual a de muitas mulheres que sofrem violência doméstica, em que o agressor isola a mulher da família e dos amigos para fragilizá-la e a tornar uma presa fácil. Com baixa autoestima e emocionalmente abalada a mulher não tem forças para reagir e se submete a todo tipo de violência causada pelo agressor.  E Vera continua: "Eu sabia que estava sofrendo, que tinha que fazer algum coisa, mas não conseguia, estava sem forças. Eu me sentia como se tivesse um peso em cima de mim e eu não conseguisse tirá-lo. Entrei em depressão, não conseguia me levantar da cama, mas meu marido dizia que isso era 'frescura', que era preguiça para não fazer os trabalhos domésticos." 

O tempo foi passando e a cada dia Vera estava mais triste, quando descobriu que estava grávida. Ela relembra: "Não fiquei feliz, pois agora seria mais difícil sair daquela situação. O que eu iria fazer sozinha com um filho? Não podia voltar para a casa da minha mãe, teria que aguentar o sofrimento". Hoje, Carolina (nome fictício) está com doze anos e estava atentamente ouvindo a história que a mãe estava contando. Ela continua: "Tive que aguentar muita coisa por causa da minha filha. E aguentei."

Quando Carolina completou nove anos, Vera fez uma festa para as amigas dela. Ao final da festa, João já tinha ingerido bastante bebida alcoólica e disse que a roupa dela estava muito curta e que ela estava usando aquela roupa para que os pais das amigas de Carolina ficassem olhando para ela. E Carolina acrescenta: "No dia do meu aniversário, quando meus amigos foram embora, meu pai estava bêbado e começou a gritar com a minha mãe, dizendo que ela colocou aquela roupa para dar em cima dos pais das minha amigas. Ele partiu para cima da minha mãe e começou a bater nela. Eu fui ajudar a minha mãe e ele me bateu, me jogou na parede e continuou dando murros na minha mãe. A gente gritava muito pedindo socorro, mas ninguém vinha ajudar a gente, porque os vizinhos já estavam acostumados a escutar os gritos da minha mãe apanhando e ela nunca denunciou o meu pai." 

O crime

Depois do espancamento, Vera estava toda machucada e não foi procurar ajuda médica. "Se eu fosse ao hospital, o médico iria saber que fui espancada e  chamaria a polícia. Eu não queria denunciá-lo, na verdade eu não sabia o que queria naquele momento. Chorei muito embaixo do chuveiro e quando vi o meu rosto todo machucado, senti muita dor, muito mais na alma do que no corpo. Quando vi que minha filha também estava com hematomas pelo corpo, eu perdi o controle.  Entrei no quarto e José estava dormindo embriagado. Estava com muito ódio dele, pois ele era um covarde. Não pensei duas vezes,fui à cozinha, peguei uma faca e comecei a golpeá-lo. Eu estava fora de mim, e cada facada que eu dava é como se fosse todos os anos que ele me bateu. Quando Carolina entrou no quarto e viu, começou a gritar e correu para a rua para chamar os vizinhos. Os vizinhos entraram e me seguraram, tirando a faca das minhas mãos. Eles pediram socorro e José foi levado ao hospital." 

Quando relembrou desse fato, Vera chorou muito, e Carolina continuou; "Vi minha mãe dando facadas no meu pai. Eu fiquei sem saber o que fazer, só pensei em pedir ajuda aos vizinhos. Lembro que tinha muito sangue e pensei que o meu pai já estava morto. Eu não conseguia entender direito o que estava acontecendo, pois só tinha nove anos."

Vera foi levada à delegacia, autuada em flagrante e encaminhada ao presídio. José foi levado ao hospital, onde ficou internado por 22 dias e recebeu alta. Os familiares de Vera vieram até o Estado de Pernambuco para resolver as questões jurídicas e retornaram ao estado de origem levando Carolina. Vera passou dois anos presa e recebeu o alvará de soltura para responder pelo crime de tentativa de homicídio em liberdade. Ela disse: "Passei dois anos presa, sem ver meus familiares e minha filha. Ninguém na minha família queria me ver. Eles apenas pagavam o advogado, mas não queriam nenhum contato comigo, pois eles diziam que eu tinha me tornado uma criminosa. Minha filha era muito nova e eles levaram. Eu pedia todos os dias para morrer. Quando consegui a minha liberdade, a primeira coisa que fiz foi procurar saber onde minha filha estava, eu precisava dela comigo." 

Os vizinhos de Vera a ajudaram depois que ela saiu do presídio. Ela ficou um tempo na casa dos amigos e arrumou um trabalho fazendo faxina. Uma senhora se penalizou com a história dela e a contratou para trabalhar como empregada doméstica, e permitiu que ele levasse a filha para morar com ela. Continua Vera: "Fui buscar minha filha, mas minha mãe não quis nem me ver. Hoje estou trabalhando como doméstica e minha patroa é uma pessoa muito boa. Minha filha está estudando e estou reconstruindo minha vida. Sei que posso voltar a ser presa, mas não quero pensar nisso. Tudo o que eu quero é viver em paz com minha filha". José sobreviveu às facadas e Vera perdeu o contato com ele.

A história de Vera é muito triste, parecida com a de tantas outra mulheres. Porém, a dela se tornou muito mais grave pelo fato dela ser uma vítima que não procurou os direitos que a lei lhe dá. Ela nunca denunciou José, nunca foi á uma delegacia se informar sobre os direitos que a lei Maria da Penha dispõe. Também não quis conhecer os direitos das medidas protetivas. Com isso, ela "perdeu a cabeça" e agiu de forma impulsiva e descontrolada, se tornando uma criminosa. Não se pode fazer justiça com as próprias mãos. Existe uma Rede de Enfrentamento que combate a violência contra a Mulher. 

As mulheres que sofrem violência doméstica devem buscar esta Rede, procurar uma Delegacia da Mulher, telefonar para o 180, o 190, procurar os Centros de Referências. Mas, nunca deve deixar a dor chegar ao limite de perder o equilíbrio e praticar um ato insano como o de Vera. Se naquele momento ela tivesse chamado a polícia, José estaria preso e ela liberta do sofrimento. Hoje, ela está respondendo em liberdade, mas certamente será condenada e irá cumprir o restante da pena.

Amigas, busquem os seus direitos pois você é vítima, e deve ser tratada como vítima. Nunca perca a razão e se transforme em uma criminosa, porque perderá o seu direito, a sua razão e a sua liberdade. Sempre aja com prudência e sabedoria, procure a Delegacia da Mulher e denuncie, essa é a sua maior arma contra a violência doméstica!

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA!

EM QUAIS ÓRGÃOS BUSCAR AJUDA VIOLENCIA CONTRA A MUHER:

» Centro de Referência Clarice Lispector – (81) 3355.3008/ 3009/ 3010
» Centro de Referência da Mulher Maristela Just - (81) 3468-2485
» Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon - 0800.281.2008
» Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à Mulher – (81) 3524.9107
» Central de atendimento Cidadã pernambucana 0800.281.8187
» Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180
» Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo)

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

PALAVRAS-CHAVE: notícias a mulher e a lei

A mulher e a lei Gleide Ângelo é delegada especial, gestora do Departamento da Mulher. gleideangelo@gmail.com

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  • De: Alex Silva- 06/02/2017 08:48 A nobre colunista há de me desculpar, Mas a “rede de enfrentamento” que menciona não é tão eficiente assim, não. Quantos são os casos, as matérias na imprensa sobre mulheres que fizeram tudo isso que a SRA. Recomendou, registrando dezenas de boletins de ocorrência, pedindo medidas protetivas e que mesmo assim acabaram mortas. Apenas para ilustrar, uso o caso da chacina em campinas, na virada do ano. Pois a mulher vítima junto com a família, segundo o que me consta tinha medida protetiva contra seu assassino. De que serviu? Ela e mais 10 foram assassinados por um homem desequilibrado. Não adianta dar um papelzinho achando que isso vai impedir um bárbaro de se aproximar, assim como não adianta o amontoado de boletins de ocorrência se nada, ou quase nada é feito na prática. As coisas melhoraram desde a lei Maria da Penha, mas não melhoraram tanto ao ponto de impedir uma mulher de fazer por si mesma o que a justiça muitas vezes não faz!
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