A mulher e a lei

O inimigo, às vezes, dorme ao seu lado

Publicado em 18/01/2016, às 06h30 | Atualizado em 19/01/2016, às 11h09

Por Gleide Ângelo

Cena do filme Dormindo com o inimigo / Foto: reprodução

Cena do filme Dormindo com o inimigo Foto: reprodução

Caros Leitores,

Hoje, quero falar especialmente para você, mulher que está sofrendo violência doméstica, que está sendo agredida fisicamente, psicologicamente, que está vivendo em uma verdadeira prisão física e mental. Quando você presenciar crimes bárbaros acontecendo contra as mulheres, onde os agressores, além de matar, enterram os corpos, esquartejam, queimam, você diz para si mesma: “nossa, comigo isso não vai acontecer, no meu caso é apenas ciúmes porque ele me ama, ele jamais faria isso”.

Aí é que está o grande problema. A maior parte dos crimes violentos, com brutalidade contra as mulheres, é motivada por esse ciúme doentio, que muitos homens chamam de amor, de paixão. O que existe por trás desses crimes bárbaros e monstruosos não são sentimentos de amor e paixão, são sentimentos de posse, de propriedade que muitos homens têm em relação às mulheres. Há homens que não admitem serem deixados e, por isso, mulheres, não se iludam, a violência contra a mulher é uma crescente. Ela geralmente começa com gritos, progridem para empurrões, puxões de cabelos, lesões físicas e terminam em morte.

A mulher espera que o homem mude, mas não se engane, quem tem que mudar é você Gleide Ângelo
Se a mulher tomar uma providência na primeira violência, ela salvará a sua vida. Essa história de ser maltratada e dar mais uma chance, mais uma, mais uma, é a grande armadilha que muitas mulheres caem. Essas chances são dadas, porque a mulher espera que o homem mude, mas não se engane, quem tem que mudar é você. Nesses anos vivenciando esses tipos de crimes, observo que as histórias se repetem, só mudam as personagens. São sempre as mesmas:

» eu pensei que ele ia mudar; pensei que era ciúme, porque ele me amava;
» as pessoas estão exagerando, foi só um empurrãozinho;
» ele não tem culpa, é porque sofreu muito na vida.... e por aí vai.

No final, a mulher está tão destruída emocionalmente, tão fragilizada, a autoestima está tão baixa, que ela acaba se achando culpada. O homem a faz acreditar que ela merece passar por todo esse sofrimento, e que ele é uma pessoa tão “boa”, que ele é a “única” pessoa que aguenta viver com ela. E ela acredita nisso, e continua sofrendo.

O que me chama bastante atenção e me causa preocupação, é que em muitos casos de violência doméstica, os familiares, os amigos não sabem de nada. A mulher está tão humilhada, tão fragilizada, que muitas vezes têm vergonha de contar à família, aos amigos. O papel da família, dos amigos, dos vizinhos é extremamente importante nesta hora, pois a mulher que sofre violência precisa de ajuda, pois emocionalmente está tão destruída que não tem forças para reagir, para buscar socorro, e geralmente sofrem sozinhas, chorando em suas camas, com dor no corpo e na alma.

Por isso, agora falo também com os familiares, com amigos e vizinhos. Você, que tem um parente, uma amiga, uma vizinha que está sendo vítima de violência, chegue mais perto dessa mulher, ofereça a sua mão, dê forças para ela, evite que ela seja a próxima vítima de crimes bárbaros. Incentive a mulher a procurar ajuda, denuncie.

Já mostrei em outros artigos a Rede de Enfrentamento à Violência contra Mulher. Há diversas Delegacias da Mulher no Estado, como também Centros de Referências que cuidam da mulher, Casas Abrigos que acolhem as mulheres. No Estado, existe uma Secretaria da Mulher que tem diversas ações de combate à violência para proteção das mulheres. Está tudo à disposição, mas você tem que buscar.  A polícia, a Secretaria da Mulher não poderá lhe ajudar se você não der o primeiro passo. Precisamos saber que o problema existe para poder lher ajudar.

Por isso, não tenha medo porque está sendo ameaçada. As medidas protetivas da Lei Maria da Penha funcionam, acredite, dê uma chance a sua vida, supere a sua dor e transforme a sua vida. Procure ajuda e siga em frente, porque a solução já existe, sua felicidade depende do seu primeiro passo, deixe de sobreviver, e passe a viver.

DENUNCIE! VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA!

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10

SERVIÇO » Ouvidoria da Mulher do Estado de Pernambuco - Cidadã Pernambucana. Fone: 0800 281 8187
» Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180
» Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo)

PALAVRAS-CHAVE: notícias a mulher e a lei

A mulher e a lei Gleide Ângelo é delegada especial, gestora do Departamento da Mulher. gleideangelo@gmail.com

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  • De: Mateus- 13/03/2017 06:01 A violência domestica sim é praticada por pessoas de AMBOS gêneros. Convém separar sua advocacia pela causa feminista da realidade da violência domestica. É vergonhoso exigir igualdade sem olhar para os privilégios atuais das mulheres no judiciário (guarda de filhos quase exclusiva, imunidade de acusaçao de alienaçao parental, e sentenças e puniçoes muito inferiores às dos homens em todos os tipos de crimes violentos). Lute contra o preconceito e pela verdadeira igualdade ao invés de pelo eterno rotulo de "vítima" para a mulher o que é uma falsidade insustentável.
  • De: Raissa de França- 18/01/2016 18:48 Tão bom Delegada, que o sofrimento da mulher terminasse na denuncia. E como lhe dar com os filhos depois? E como arcar com as despesas desses quando o provedor estiver ausente? Essa discussão é muito mais profunda.
  • De: Francisco- 18/01/2016 15:12 Delegada, concordo plenamente com o que a senhora expôs em seu texto, mas é muito difícil prestar ajuda a uma mulher que está sendo vítima de um marido bandido (chamo logo assim porque não há outro adjetivo para esse tipo de gente). Por uma série de motivos, elas evitam prestar queixa. Alegam uma série de fatores para não tomar uma providência e se resignam. Às vezes quem tenta ajudá-la termina se passando por inconveniente e adquirindo uma série de aborrecimentos. Como a senhora tem muita experiência na área, pergunto: qual é a melhor maneira de conversar com uma mulher que passe por isso? Como devemos abordá-la sem passar a impressão de que "por estar se metendo no problema" podemos agravá-lo ainda mais?
  • De: sergio luiz barbosa- 18/01/2016 13:59 A máxima é a seguinte: a mulher casa e pensa que vai mudar o marido e o homem casa pensando que a mulher nunca vai mudar. O dia a dia é que é o X do casamento.
  • De: Maila- 18/01/2016 11:03 Pena que a delegada Gleide Ângelo, não estava de frente no caso da pequena Beatriz Mota! Certamente o assassino já estaria preso. Mas, a falta de preparo da outra delegada e o tempo que passou, sem nada apurar. Atrapalharam as investigações! Parabéns delegada pela competência!
  • De: felix- 18/01/2016 09:27 não e só o homem não a mulher também tem que mudar tudo começou com o erro de eva
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